Há poucas semanas, Patrícia Moreira foi demitida de seu emprego. Já Dick Advocaat mudou de local de trabalho em Julho desse ano.
Patrícia, torcedora do Grêmio, foi flagrada por câmeras de televisão em um estádio, xingando o goleiro adversário de "macaco". Além de ter perdido o emprego, viu-se impossibilitada de sair na rua, com medo de represálias de pessoas que concluíram que ela foi racista por ter xingado um adversário em um jogo de futebol - a casa onde morava com a família foi alvo de atos de vandalismo, sendo inclusive incendiada.
O xingamento que Patrícia berrou para o goleiro adversário gerou uma revolta babilônica e ela foi acionada judicialmente por injúria racial (artigo 140 do Código Penal Brasileiro, que de acordo com a legislação é diferente de racismo). Patrícia não foi a única: outros torcedores foram flagrados xingando o goleiro adversário de macaco. Mas há os torcedores que não foram flagrados pelas câmeras. Houve quem sugerisse "enfia essa bandeira no cu" ao bandeirinha; outro sugeriu "quebra esse filho da puta" a um jogador do seu time, porque o atacante adversário rondava o gol do Grêmio. E houve até quem xingasse jogador do próprio time, gritando "eu vou te matar, corno desgraçado" a um lateral que errou um cruzamento, enquanto outros disseram "te mata, filhodumaputa pau no cu" a um centroavante que desperdiçou uma boa jogada de ataque. E muitos concordaram ao berrar "ele tá sempre roubando, esse ladrão chupador de piroca" para o juiz, quando ele marcou uma falta no meio de campo.
A quem se ofendeu com o parágrafo acima eu peço perdão, mas é o que acontece em um estádio de futebol: as pessoas xingam. E xingam tanto ou até mais que Patrícia Moreira. No estádio, os torcedores cometem ameaças graves (artigo 147 do Código Penal), induzimento ao suicídio (artigo 122), difamação (artigo 139) etc.
O xingamento é corriqueiro no futebol porque este é um esporte não apenas físico, mas também psicológico. É normal que um jogador busque desestabilizar o adversário através de xingamentos - Zidane foi expulso na final da Copa do Mundo de 2006 porque desferiu uma cabeçada no peito de Materazzi, que havia dito "prefiro a puta da sua irmã". E não é apenas através de xingamentos que um jogador tenta desestabilizar o adversário: em jogos com pouco ou nenhum televisionamento, inúmeros são os casos de atletas que passam a mão nas partes íntimas dos seus adversários para que eles se irritem e sejam expulsos. Hoje, podem procurar auxílio na Lei 12.015/2009.
Torcedores também participam desse processo, xingando os jogadores do time adversário. Xingam também porque não admitem ver seu time perdendo - o que me parece ser o caso de Patrícia Moreira. E podem ir além: eu já vi torcedor cuspir em jogador que passava perto do alambrado. O termo "pressão da torcida" descreve isso.
Enquanto Patrícia tinha sua vida virada do avesso, Dick Advocaat, como já citei, iniciava uma nova etapa em seu ramo profissional. Para quem não o conhece, Advocaat é um técnico de futebol nascido na Holanda e foi contratado em Julho de 2014 para treinar a Seleção da Sérvia - o que é um absurdo.
Em 2008, Advocaat era treinador do Zenit, clube russo finalista da Copa da Uefa daquele ano. Um dia antes da final, ele afirmou que não queria jogadores negros no seu time e justificou dizendo que fazia isso porque os torcedores do time não queriam negros. Em 2012, os torcedores do Zenit deram uma nova demonstração de preconceito através de um manifesto contrário a negros e homossexuais.
Enquanto o Grêmio era excluído de um campeonato porque seus torcedores xingaram jogadores adversários, o Zenit da Rússia segue disputando competições europeias - mesmo com torcedores abertamente racistas. E enquanto Patrícia Moreira tinha sua vida drasticamente modificada, Dick Advocaat, conivente com um racismo imbecil, segue sua vida de treinador de futebol. Bem diferente de Donald Sterling, que foi banido da NBA e obrigado a se desfazer de seu clube, o Los Angeles Clippers, por mostrar-se contrário à presença de negros nos jogos do seu time.
Quando cito o caso do Zenit, de Dick Advoocat e de Donald Sterling, quero na verdade dizer que rejeito a ideia de que o racismo não existe. Ele existe. O que questiono é se Patrícia foi de fato racista, como de repente a esmagadora maioria da população passou a taxá-la. Racismo é uma aberração e um crime tão grave que parece que todos descartam a necessidade de raciocínio. A lógica que as pessoas adotaram parece ser: "uma vez que o racismo é um ato tão estúpido, quem faz algo que possa ter qualquer tipo de referência a ele deve sumariamente sofrer as consequências de alguém que claramente é racista".
(E acho questionável culpar a atuação da imprensa no processo que abalou a vida de Patrícia Moreira. Qualquer um que tenha acesso ao Facebook viu a quantidade de pessoas que voluntariamente vociferaram contra a atitude da torcedora - eu mesmo vi alguém se mostrar especialista em linguagem corporal em um único post onde avaliava a postura física de Patrícia ao xingar o goleiro adversário.)
Não estou querendo dizer que Patrícia Moreira está certa em xingar o goleiro de macaco. Estou na verdade estranhando o fato de, de repente, todo mundo notar que existe xingamento no futebol. Há muito tempo que o futebol não é um esporte exemplar (se é que algum dia já o foi). Nele há fartura de xingamentos e há também racismo (vide Zenit e Dick Advocaat), porém em escala muito menor do que parece. No futebol, a homofobia é um problema bem maior que o racismo. A reação ao simples selinho de Emerson em um amigo deixa isso claro.
O machismo é igualmente maior que o racismo no futebol. Mulheres são uma realidade nas arquibancadas - e só. Quando resolvem participar da arbitragem, suas atuações são resumidas a seus atributos físicos e seus erros são creditados ao seu gênero. Além do caso mais recente, envolvendo Fernanda Colombo, houve o caso de Ana Paula Oliveira, que por alguma coincidência não participou mais como bandeirinha em grandes jogos após ter posado nua para a Playboy. É comum que homens treinem equipes femininas, mas mulheres treinando equipes masculinas é tão raro que podem ser consideradas como casos isolados - lembro de um caso na quarta divisão paulista e um caso na segunda divisão francesa. E nem preciso falar da falta de prestígio que o próprio futebol feminino frequenta.
A luta contra o racismo (e o preconceito de modo geral) é falha porque prefere incluir atos de menor impacto (como um xingamento no estádio) a combater aquilo que deveria ser seu principal alvo: diminuir ou excluir alguém daquilo que se entende por sociedade.
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terça-feira, 23 de setembro de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
Aparências
"Relaxando com uma musiquinha, um livro e um mate :)"
Foi o que publicou no Facebook. Queria o que todo mundo quer no Facebook: atenção. Muitos "Curtir". Quanto mais "Curtir", mais seu ego era massageado, mais ganhava admiração e uma invejinha - saudável - dos seus amigos virtuais. "Puxa, também queria relaxar com uma boa música, um bom livro e um bom chimarrão, se deu bem, vou curtir": era assim que deveria pensar quem lesse a publicação. E não era mentira: estava realmente ouvindo uma musiquinha, lendo um livro e tomando um chimarrão.
Ouvia "Marcas de Amor", o primeiro álbum do Latino, enquanto lia o novo livro do Paulo Coelho e tomava chimarrão com chá de anis.
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Foi o que publicou no Facebook. Queria o que todo mundo quer no Facebook: atenção. Muitos "Curtir". Quanto mais "Curtir", mais seu ego era massageado, mais ganhava admiração e uma invejinha - saudável - dos seus amigos virtuais. "Puxa, também queria relaxar com uma boa música, um bom livro e um bom chimarrão, se deu bem, vou curtir": era assim que deveria pensar quem lesse a publicação. E não era mentira: estava realmente ouvindo uma musiquinha, lendo um livro e tomando um chimarrão.
Ouvia "Marcas de Amor", o primeiro álbum do Latino, enquanto lia o novo livro do Paulo Coelho e tomava chimarrão com chá de anis.
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quarta-feira, 19 de março de 2014
(quase) Acabou-se o que era lanche
"Ah, tudo bem, eu estou de regime mesmo", eu disse, sessenta e quatro quilos de pura resignação distribuídos em um metro e cinquenta centímetros. Era mentira, claro. Eu nunca fiz regime e meço bem mais de 1,50m.
E a bem da verdade foi uma tristeza saber que os tradicionais trailers de Pelotas deveriam, por ordem do Ministério Público, deixar de existirem. É lógico que tem toda uma análise a ser feita: trailers ocupam espaços públicos, há necessidade de requalificação do espaço urbano (sic). Além disso, outros estabelecimentos alimentícios, por ocuparem casas propriamente ditas, pagam impostos que os trailers, por serem trailers, não pagam. Sim, tem um monte de coisa...
Vídeo da Convergência Produtora
Mesmo assim, é uma tristeza. Porque os trailers são (ops, eram, preciso me acostumar) uma tradição nessa cidade - tradição infinitamente mais saudável e higiênica que os cães de rua, por exemplo. Era comum que as pessoas aproveitassem o fim do dia e o início da noite para encherem o bucho com um Bauru Super do Sanata (com calabresa, lombinho, galinha, coração, bife, vinho e outros ingredientes - e, se não fosse suficiente, adicional de bacon) ou um Bauru Turbo do Circulus (com alcatra e calabresa picada, entre outros ingredientes). Evidente que quem sofria com isso eram os estudantes dos prédios próximos. É provável que o odor impregnado na Praça do Direito seja capaz de advogar melhor que muito aluno formado naquele prédio.
À primeira vista, a decisão do Ministério Público me pareceu bastante intransigente. É bem verdade que os trailers ocupam um espaço público, mas acredito que deveria haver uma flexibilidade maior nesse caso. Poderiam, por exemplo, criar uma série de normas de higiene e organização para eles (os que não seguissem essas normas seriam impedidos de prosseguirem suas atividades), bem como uma taxa - sei lá, algo como "Taxa para quem faz lanches melhores que o McDonald's". Se bem que, com esse nome, se eu fizesse um sanduíche aqui em casa acabaria tendo que pagar esse imposto.
Depois, pensando um pouco mais sobre o assunto, é evidente que fiz questão de enxergar chifre em cabeça de porco. Digo, os trailers de Pelotas já tinham sofrido um ataque da Vigilância Sanitária, que proibiu a maionese caseira - parte indispensável da cultura trailer-gastronômica - alegando "risco de contaminação". Ora, se risco de contaminação realmente fosse uma preocupação, teriam proibido o Bloco Beijo Maldito e o Canal do Pepino estaria aterrado há décadas.
E, como o golpe da maionese não foi suficiente, o Ministério Público resolveu aparecer com um veto completo: trailer estacionado eternamente não pode mais. Tudo isso - o golpe da maionese e a intervenção do MP - aconteceu, coincidência ou não, depois que uma rede de fast food com nome que lembra transporte subterrâneo apareceu exatamente entre o Sanata e o Circulus (os mais tradicionais trailers de Pelotas), ou seja, bem no meio de uma grande população de estudantes universitários.
Lobby ou não, divago. Assim como no caso dos trailers, o Ministério Público também interveio no caso do banheiro público instalado nas areias do Laranjal, ordenando a retirada da obra cocônica na praia. Em ambos os casos a prefeitura acatou as ordens do MP. Falta só cumprir a ordem de fazer uma licitação para o transporte público na cidade. Fiquei sabendo que até iam cumprir, mas aí chegou um ônibus da Conquistadora guiado por um candidato reprovado à Fórmula Truck e atropelou a ordem do Ministério Público.
Dos males, o menor: proibiram os trailers, mas os mais tradicionais (como Circulus, Sanata e Lílian) agora ocupam casas ou terrenos próximos de onde ficavam seus trailers - com maionese e tudo. Fica a tradição do lanche, vai-se o charme do trailer.
Se me dão licença, antes que a Vigilância Sanitária e o Ministério Público interceda diretamente nos meus beiços - além de querer matar os pelotenses de fome -, vou limpar a baba que se acumulou aqui enquanto escrevi esse texto.
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E a bem da verdade foi uma tristeza saber que os tradicionais trailers de Pelotas deveriam, por ordem do Ministério Público, deixar de existirem. É lógico que tem toda uma análise a ser feita: trailers ocupam espaços públicos, há necessidade de requalificação do espaço urbano (sic). Além disso, outros estabelecimentos alimentícios, por ocuparem casas propriamente ditas, pagam impostos que os trailers, por serem trailers, não pagam. Sim, tem um monte de coisa...
Vídeo da Convergência Produtora
Mesmo assim, é uma tristeza. Porque os trailers são (ops, eram, preciso me acostumar) uma tradição nessa cidade - tradição infinitamente mais saudável e higiênica que os cães de rua, por exemplo. Era comum que as pessoas aproveitassem o fim do dia e o início da noite para encherem o bucho com um Bauru Super do Sanata (com calabresa, lombinho, galinha, coração, bife, vinho e outros ingredientes - e, se não fosse suficiente, adicional de bacon) ou um Bauru Turbo do Circulus (com alcatra e calabresa picada, entre outros ingredientes). Evidente que quem sofria com isso eram os estudantes dos prédios próximos. É provável que o odor impregnado na Praça do Direito seja capaz de advogar melhor que muito aluno formado naquele prédio.
À primeira vista, a decisão do Ministério Público me pareceu bastante intransigente. É bem verdade que os trailers ocupam um espaço público, mas acredito que deveria haver uma flexibilidade maior nesse caso. Poderiam, por exemplo, criar uma série de normas de higiene e organização para eles (os que não seguissem essas normas seriam impedidos de prosseguirem suas atividades), bem como uma taxa - sei lá, algo como "Taxa para quem faz lanches melhores que o McDonald's". Se bem que, com esse nome, se eu fizesse um sanduíche aqui em casa acabaria tendo que pagar esse imposto.
Depois, pensando um pouco mais sobre o assunto, é evidente que fiz questão de enxergar chifre em cabeça de porco. Digo, os trailers de Pelotas já tinham sofrido um ataque da Vigilância Sanitária, que proibiu a maionese caseira - parte indispensável da cultura trailer-gastronômica - alegando "risco de contaminação". Ora, se risco de contaminação realmente fosse uma preocupação, teriam proibido o Bloco Beijo Maldito e o Canal do Pepino estaria aterrado há décadas.
E, como o golpe da maionese não foi suficiente, o Ministério Público resolveu aparecer com um veto completo: trailer estacionado eternamente não pode mais. Tudo isso - o golpe da maionese e a intervenção do MP - aconteceu, coincidência ou não, depois que uma rede de fast food com nome que lembra transporte subterrâneo apareceu exatamente entre o Sanata e o Circulus (os mais tradicionais trailers de Pelotas), ou seja, bem no meio de uma grande população de estudantes universitários.
Lobby ou não, divago. Assim como no caso dos trailers, o Ministério Público também interveio no caso do banheiro público instalado nas areias do Laranjal, ordenando a retirada da obra cocônica na praia. Em ambos os casos a prefeitura acatou as ordens do MP. Falta só cumprir a ordem de fazer uma licitação para o transporte público na cidade. Fiquei sabendo que até iam cumprir, mas aí chegou um ônibus da Conquistadora guiado por um candidato reprovado à Fórmula Truck e atropelou a ordem do Ministério Público.
Dos males, o menor: proibiram os trailers, mas os mais tradicionais (como Circulus, Sanata e Lílian) agora ocupam casas ou terrenos próximos de onde ficavam seus trailers - com maionese e tudo. Fica a tradição do lanche, vai-se o charme do trailer.
Se me dão licença, antes que a Vigilância Sanitária e o Ministério Público interceda diretamente nos meus beiços - além de querer matar os pelotenses de fome -, vou limpar a baba que se acumulou aqui enquanto escrevi esse texto.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Facebook comprou o Whatsapp. E a gente?
Essa semana o Facebook causou muito burburinho por comprar o Whatsapp. Não pela compra em si, mas pelo dinheiro que usou nessa compra: 16 bilhões de dólares. E um bilhete escrito "Chupa Eike Batista".
Eu acho o valor ainda mais impressionante porque, há alguns anos atrás, o Google comprou por 1,65 bilhão de dólares o YouTube, que me parece ser algo muito mais complexo que o Whatsapp. Imagino que o Google curtiu e compartilhou isso, com a mensagem "pelo menos nós sabemos pechinchar".
O YouTube custou 1,65 bilhão de dólares; o Whatsapp, 16 bilhões. São quase 15 bilhões de dólares de diferença. Eu imagino que isso se dê porque o YouTube não permite vídeos eróticos, enquanto o Whatsapp tá cheio de pornografia circulando. O acervo putanhesco é incomparável e deve ter jogado o preço do aplicativo lá nas alturas. Fico me perguntando quanto o Google ou o Facebook pagariam pelo XVideos.
16 bilhões de dólares por um serviço de mensagens instantâneas. Tenho certeza que, em alguma sala de bate-papo da UOL, alguém entrou com o nick "DONO_DA_UOL" e falou com todos: "alguém quer tc? to mt triste e carente".
Mas a verdade é que o Facebook pagou pelo Whatsapp um preço compatível com o mercado atual. Qualquer coisa hoje está pela hora da morte. Outro dia um amigo foi comprar Coca e o vendedor cobrou o preço de uma garrafa de 3 litros. E esse meu amigo jura que não tinha nem meia grama no pacote.
Para provar que o mercado mundial está uma loucura, listo aqui o que se pode fazer ou comprar se 16 bilhões de dólares caírem no colo de uma pessoa por algum acaso da vida:
- 3 entradas para o Reino dos Céus com Edir Macedo;
- 4 entradas para o Reino dos Céus com Silas Malafaia;
- 7 entradas para o Reino dos Céus com Marco Feliciano;
- 9 entradas para o Reino dos Céus com R.R. Soares;
- 20 entradas para o Reino dos Céus com Waldemiro Santiago (crise, irmãos);
- 3 meses de aluguel de um quitinete no Centro de Pelotas;
- 4 meses de aluguel de um quitinete em um bairro mais afastado de Pelotas;
- 2 prestações de um imóvel em Pelotas (pintura e reforma não incluídas);
- 1 vaga na garagem de um condomínio de luxo no Rio de Janeiro;
- 40 bilhões de vezes o passe do Alexandre Pato;
- 3 ingressos para assistir a um jogo qualquer da Copa do Mundo no Brasil;
- 2 ingressos para assistir a final da Copa do Mundo no Brasil;
- Meio ingresso para o show do "Guns N' Roses" no Brasil;
- 2 controles do Playstation 4 no Brasil;
- 2 sobremesas no Restaurante CHU;
- 3 cervejas no Papuera;
- 1 cerveja no Nova York Irish Pub.
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Eu acho o valor ainda mais impressionante porque, há alguns anos atrás, o Google comprou por 1,65 bilhão de dólares o YouTube, que me parece ser algo muito mais complexo que o Whatsapp. Imagino que o Google curtiu e compartilhou isso, com a mensagem "pelo menos nós sabemos pechinchar".
O YouTube custou 1,65 bilhão de dólares; o Whatsapp, 16 bilhões. São quase 15 bilhões de dólares de diferença. Eu imagino que isso se dê porque o YouTube não permite vídeos eróticos, enquanto o Whatsapp tá cheio de pornografia circulando. O acervo putanhesco é incomparável e deve ter jogado o preço do aplicativo lá nas alturas. Fico me perguntando quanto o Google ou o Facebook pagariam pelo XVideos.
16 bilhões de dólares por um serviço de mensagens instantâneas. Tenho certeza que, em alguma sala de bate-papo da UOL, alguém entrou com o nick "DONO_DA_UOL" e falou com todos: "alguém quer tc? to mt triste e carente".
Mas a verdade é que o Facebook pagou pelo Whatsapp um preço compatível com o mercado atual. Qualquer coisa hoje está pela hora da morte. Outro dia um amigo foi comprar Coca e o vendedor cobrou o preço de uma garrafa de 3 litros. E esse meu amigo jura que não tinha nem meia grama no pacote.
Para provar que o mercado mundial está uma loucura, listo aqui o que se pode fazer ou comprar se 16 bilhões de dólares caírem no colo de uma pessoa por algum acaso da vida:
- 3 entradas para o Reino dos Céus com Edir Macedo;
- 4 entradas para o Reino dos Céus com Silas Malafaia;
- 7 entradas para o Reino dos Céus com Marco Feliciano;
- 9 entradas para o Reino dos Céus com R.R. Soares;
- 20 entradas para o Reino dos Céus com Waldemiro Santiago (crise, irmãos);
- 3 meses de aluguel de um quitinete no Centro de Pelotas;
- 4 meses de aluguel de um quitinete em um bairro mais afastado de Pelotas;
- 2 prestações de um imóvel em Pelotas (pintura e reforma não incluídas);
- 1 vaga na garagem de um condomínio de luxo no Rio de Janeiro;
- 40 bilhões de vezes o passe do Alexandre Pato;
- 3 ingressos para assistir a um jogo qualquer da Copa do Mundo no Brasil;
- 2 ingressos para assistir a final da Copa do Mundo no Brasil;
- Meio ingresso para o show do "Guns N' Roses" no Brasil;
- 2 controles do Playstation 4 no Brasil;
- 2 sobremesas no Restaurante CHU;
- 3 cervejas no Papuera;
- 1 cerveja no Nova York Irish Pub.
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Studio Pampa
Não é bairrismo: quem nasce gaúcho, é abençoado. Diariamente eu tenho a sensação de que nunca seria feliz se tivesse nascido, sei lá, no Piauí. Estaria sempre com a sensação de que falta alguma coisa. E ser gaúcho é saber exatamente o que falta pra ser feliz: chimarrão.
É lógico que o fato de ter nascido em outro Estado não define a felicidade ou infelicidade de uma pessoa. Quem não nasceu no Rio Grande do Sul tem uma solução: vir morar no Rio Grande do Sul. Além de todas as vantagens inerentes (comer churrasco e tomar chimarrão como quem dá bom dia, além de ter os limites territoriais guarnecidos pelo Gaúcho da Fronteira), quem mora no Rio Grande do Sul tem uma grande vantagem sobre o resto da população mundial: assistir ao Studio Pampa.
Para quem não é agraciado e não mora no Rio Grande do Sul, explico: o Studio Pampa é um programa televisivo da TV Pampa, que passa durante as madrugadas. A TV Pampa é a afiliada gaúcha da Rede TV!. A associação não poderia ser melhor. E coitados de vocês que não conhecem o Studio Pampa. Pra quem nunca viu, o Studio Pampa começa com as apresentadoras (assim, no plural) dançando - simplesmente dançando. Sucessos do passado e do presente: uma música pergunta "Do you believe in life after love?" e a outra responde "Eu quero tchu tchá tchá." Durante, sei lá, 5 minutos ininterruptos. As apresentadoras são apresentadas dançando, mas elas não falam o nome delas. Ao invés disso, um autógrafo da moça que está em close aparece na tela. Mas não é um autógrafo qualquer: é um autógrafo com um coração em qualquer lugar ou estrelinha no lugar do pingo do i.
A primeira dúvida aparece logo aí: quem pediria um autógrafo pra elas? A segunda dúvida vem em seguida: quem assina o próprio nome com um coração ou estrelinha? Digo, além das meninas da quinta série.
Por alguma coincidência da vida, na primeira vez que eu vi Studio Pampa tava rolando o concurso das PampaCats, que são a mesma coisa que aquelas gurias que ficavam dançando nas taças gigantes do Sabadão Sertanejo ou as Panicats - só que do Studio Pampa. Quem vê Studio Pampa sabe o tamanho da surpresa que é saber da existência de um concurso pra PampaCat, porque o normal é pensar que a única maneira de ser cenário vivo dançante do Studio Pampa é ter um revólver apontado pra cabeça e ouvir a frase "ou tu vai dançar ou tu morre."
Mas não, tem o concurso. E entrevistavam as candidatas, perguntavam nome, idade, até que vinha a fatídica pergunta: "qual o seu maior sonho?". E todas - absolutamente todas - respondiam que o maior sonho que tinham é ser PampaCat. Se Freud fosse vivo, teria um derrame cerebral analisando uma pessoa dessas. E o que fazem as PampaCats? Apenas servem de cenário vivo. Passinho pra lá, passinho pra cá durante o programa inteirinho. Não abrem a boca. "As assistentes de palco mais simpáticas, mais carismáticas..." Isso não fui eu quem disse, foi uma das apresentadoras. Pior que nós, homens, nem podemos reclamar, porque adoraríamos ter uma mulher carismática assim. "Mulé, vai lá pegar uma cerveja pra mim", e ela vai e volta dançando, sorrindo e com uma cerveja gelada. Sem falar nada.
Além de não ter a sorte de assistir ao Studio Pampa, vocês aí do resto do país devem estar notando que a Andressa Urach está meio sumida. Para nós, não: ela é a mais nova apresentadora do Studio Pampa. É isso aí: a ex-vice (ex! Vice!) Miss Bumbum está na telinha gaúcha. Ela é pura superação: começou por baixo, no Miss Bumbum, e está terminando ainda mais baixo, no Studio Pampa.
Mas quer saber? Talvez todo esse texto seja puro recalque. A verdade é que eu comeria várias das apresentadoras do Studio Pampa. Sério mesmo. Acho que só não comeria a Andressa Urach. Eu comeria até o Jones Machado antes de comer a Andressa Urach. Porque o Jones Machado deve ser passivo e a Andressa Urach deve ser ativa. Aí eu não curto. Vai que eu coma a Andressa Urach e acabe que nem o Cristiano Ronaldo?
Pensando bem... acabar que nem o Cristiano Ronaldo pode ser uma boa. Me desculpa Jones Machado, vou ter que dar essa chance pra Andressa Urach. Te cuida, CR7.
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É lógico que o fato de ter nascido em outro Estado não define a felicidade ou infelicidade de uma pessoa. Quem não nasceu no Rio Grande do Sul tem uma solução: vir morar no Rio Grande do Sul. Além de todas as vantagens inerentes (comer churrasco e tomar chimarrão como quem dá bom dia, além de ter os limites territoriais guarnecidos pelo Gaúcho da Fronteira), quem mora no Rio Grande do Sul tem uma grande vantagem sobre o resto da população mundial: assistir ao Studio Pampa.
Para quem não é agraciado e não mora no Rio Grande do Sul, explico: o Studio Pampa é um programa televisivo da TV Pampa, que passa durante as madrugadas. A TV Pampa é a afiliada gaúcha da Rede TV!. A associação não poderia ser melhor. E coitados de vocês que não conhecem o Studio Pampa. Pra quem nunca viu, o Studio Pampa começa com as apresentadoras (assim, no plural) dançando - simplesmente dançando. Sucessos do passado e do presente: uma música pergunta "Do you believe in life after love?" e a outra responde "Eu quero tchu tchá tchá." Durante, sei lá, 5 minutos ininterruptos. As apresentadoras são apresentadas dançando, mas elas não falam o nome delas. Ao invés disso, um autógrafo da moça que está em close aparece na tela. Mas não é um autógrafo qualquer: é um autógrafo com um coração em qualquer lugar ou estrelinha no lugar do pingo do i.
A primeira dúvida aparece logo aí: quem pediria um autógrafo pra elas? A segunda dúvida vem em seguida: quem assina o próprio nome com um coração ou estrelinha? Digo, além das meninas da quinta série.
Por alguma coincidência da vida, na primeira vez que eu vi Studio Pampa tava rolando o concurso das PampaCats, que são a mesma coisa que aquelas gurias que ficavam dançando nas taças gigantes do Sabadão Sertanejo ou as Panicats - só que do Studio Pampa. Quem vê Studio Pampa sabe o tamanho da surpresa que é saber da existência de um concurso pra PampaCat, porque o normal é pensar que a única maneira de ser cenário vivo dançante do Studio Pampa é ter um revólver apontado pra cabeça e ouvir a frase "ou tu vai dançar ou tu morre."
Mas não, tem o concurso. E entrevistavam as candidatas, perguntavam nome, idade, até que vinha a fatídica pergunta: "qual o seu maior sonho?". E todas - absolutamente todas - respondiam que o maior sonho que tinham é ser PampaCat. Se Freud fosse vivo, teria um derrame cerebral analisando uma pessoa dessas. E o que fazem as PampaCats? Apenas servem de cenário vivo. Passinho pra lá, passinho pra cá durante o programa inteirinho. Não abrem a boca. "As assistentes de palco mais simpáticas, mais carismáticas..." Isso não fui eu quem disse, foi uma das apresentadoras. Pior que nós, homens, nem podemos reclamar, porque adoraríamos ter uma mulher carismática assim. "Mulé, vai lá pegar uma cerveja pra mim", e ela vai e volta dançando, sorrindo e com uma cerveja gelada. Sem falar nada.
Além de não ter a sorte de assistir ao Studio Pampa, vocês aí do resto do país devem estar notando que a Andressa Urach está meio sumida. Para nós, não: ela é a mais nova apresentadora do Studio Pampa. É isso aí: a ex-vice (ex! Vice!) Miss Bumbum está na telinha gaúcha. Ela é pura superação: começou por baixo, no Miss Bumbum, e está terminando ainda mais baixo, no Studio Pampa.
Mas quer saber? Talvez todo esse texto seja puro recalque. A verdade é que eu comeria várias das apresentadoras do Studio Pampa. Sério mesmo. Acho que só não comeria a Andressa Urach. Eu comeria até o Jones Machado antes de comer a Andressa Urach. Porque o Jones Machado deve ser passivo e a Andressa Urach deve ser ativa. Aí eu não curto. Vai que eu coma a Andressa Urach e acabe que nem o Cristiano Ronaldo?
Pensando bem... acabar que nem o Cristiano Ronaldo pode ser uma boa. Me desculpa Jones Machado, vou ter que dar essa chance pra Andressa Urach. Te cuida, CR7.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Bacon
- Não gosto de bacon.
- Como?
- Não gosto... sei lá. Não gosto.
- Como assim, "não gosta de bacon"?
- Sei lá... só não gosto.
- Some daqui.
- Oi?
- Some da minha casa.
- Calma...
- É sério. Some da minha casa.
- Ei, espera! Não empurra!
- Tô falando sério. Some da minha casa, seu... não-comedor de bacon.
- Espera! Me escuta! Não empurra, deixa eu ficar!
- Nunca. Some da minha casa. Vai... vai... vai não-comer bacon longe daqui.
- Calma! Deixa eu ficar! Se eu ficar, sobra mais bacon pra ti!
- Hm...
- Sabe? Eu não como bacon... fica mais pra ti.
- É. Isso é verdade.
- Pois então.
- Tá, fica. Mas não abre a boca. Não quero mais ouvir tua voz. Quem não abre a boca pra comer bacon não merece abrir a boca pra mais nada.
- Tá bom...
- Cala a boca.
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- Como?
- Não gosto... sei lá. Não gosto.
- Como assim, "não gosta de bacon"?
- Sei lá... só não gosto.
- Some daqui.
- Oi?
- Some da minha casa.
- Calma...
- É sério. Some da minha casa.
- Ei, espera! Não empurra!
- Tô falando sério. Some da minha casa, seu... não-comedor de bacon.
- Espera! Me escuta! Não empurra, deixa eu ficar!
- Nunca. Some da minha casa. Vai... vai... vai não-comer bacon longe daqui.
- Calma! Deixa eu ficar! Se eu ficar, sobra mais bacon pra ti!
- Hm...
- Sabe? Eu não como bacon... fica mais pra ti.
- É. Isso é verdade.
- Pois então.
- Tá, fica. Mas não abre a boca. Não quero mais ouvir tua voz. Quem não abre a boca pra comer bacon não merece abrir a boca pra mais nada.
- Tá bom...
- Cala a boca.
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Ajuda
- Então doutor...
- Sim.
- Eu vim aqui porque... bem, estou com problemas com a minha amada esposa.
- Ótimo, ficarei satisfeito em ajudá-los. Mas...
- Mas o quê, doutor? Tem algum empecilho?
- É necessário que ela venha junto...
- Ah, então...
- ... afinal, eu sou terapeuta de casais.
- Exatamente. Esperava que o senhor pudesse me ajudar com isso também.
- Não entendi.
- Estou encalhadíssimo, doutor. Me arranja um casamento?
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- Sim.
- Eu vim aqui porque... bem, estou com problemas com a minha amada esposa.
- Ótimo, ficarei satisfeito em ajudá-los. Mas...
- Mas o quê, doutor? Tem algum empecilho?
- É necessário que ela venha junto...
- Ah, então...
- ... afinal, eu sou terapeuta de casais.
- Exatamente. Esperava que o senhor pudesse me ajudar com isso também.
- Não entendi.
- Estou encalhadíssimo, doutor. Me arranja um casamento?
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Time sem vergonha (II)
Sou gaúcho de Pelotas - assim como era meu pai. Pelotenses têm orgulho de dizer que torcem fervorosa e exclusivamente para seus clubes (Brasil, Pelotas e Farroupilha) e não para os times de fora (Grêmio e Inter). Torcer para times de outros estados, então, é a mesma coisa que dizer que é alienígena. Meu pai era uma exceção: torcia para o Fluminense, para o Inter e para o Pelotas. Talvez por sangue, também fui exceção: torcia para Corinthians, Inter e Brasil de Pelotas. A minha história como torcedor é assim: um pouco exótica.
Eu torcia fervorosamente para o Corinthians, era meu time número 1. De verdade: comemorei feito uma besta o título "mundial" de 2000. Pior: quando Javier Castrilli marcou toque de mão do zagueiro da Portuguesa na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, briguei com meio mundo dizendo que ele estava certo. Quando o time sofreu um pequeno acidente de avião na Venezuela em 1996, eu chorei.
Não sei explicar como deixei de torcer pelo Corinthians. Deve ter acontecido gradualmente. Sei que comecei a acompanhar mais os meus times daqui: o Inter e o Brasil de Pelotas. Quando percebi, não comemorei a contratação do Tevez no final de 2004. Porque torcedor tem disso: comemora até contratação. Eu não comemorei a do Tevez, tampouco reclamei. Simplesmente foi insossa pra mim. Foi quando percebi que já não era mais corinthiano.
E, se eu já não me escabelava pelo Corinthians, já tem um ou dois anos que eu já não me escabelo por futebol em geral. Talvez seja o efeito Mazembe, não sei. Sei que essa paixão fervorosa, típica de um torcedor, passou a ser, para mim, algo bobo. Não acho execrável: só não serve para mim. Continuo colorado e xavante, mas deixei de me estressar por causa de futebol e minha calvície agradece. E o que restou de gosto por futebol em mim está indo pras cucuias com essa patacoada entre entidades jurídicas desportivas e clubes de maior ou menor expressão, essa suruba que a Portuguesa foi e, como o seu conterrâneo Manuel, passaram-lhe a mão na bunda e ele não comeu ninguém. Essa confusão sepulta o pouco que restava de credibilidade do futebol brasileiro e que a Copa do Mundo não recuperará: apenas dará aos estrangeiros a ilusão de que nosso futebol merece respeito.
Acho que é melhor eu começar a simpatizar pelo futebol do exterior. Está bem distante e eu não recebo muitas notícias diárias deles. Já ando inclusive buscando alguns clubes para gostar mais. Acho que Borussia Dortmund e Arsenal me parecem uma escolha bacana.
Já meu pai, bem, não conheço histórias dele como torcedor. Sei que ele tentou fazer com que eu torcesse pelo Pelotas (tenho fotos com uma camiseta do time - camiseta que, por sinal, deve estar guardada até hoje) e que estava em Porto Alegre no dia do bicampeonato brasileiro do Inter. Quanto ao Fluminense, eu não sei. Não sei se ele foi ao Maracanã alguma vez para ver o time em ação. Quando eu fiz isso, em 12 de outubro de 2013, o Fluminense empatou com o Grêmio em 1 a 1 e eu não lembrei do meu pai por um só instante - nem quando comemorei o gol do Rafael Sóbis aos 45 minutos do segundo tempo. Estava mais preocupado em curtir o encantamento de estar no Maracanã e xingar o Kléber Gladiador. Mas sei que meu pai era torcedor do Fluminense, talvez tanto quanto eu era torcedor do Corinthians.
Meu pai morreu há 20 anos e, hoje, eu tenho mais vergonha de dizer que ele era torcedor do Fluminense do que dizer que eu torcia feito uma mula pelo Corinthians e que hoje talvez eu torça para Borussia Dortmund e Arsenal.
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Eu torcia fervorosamente para o Corinthians, era meu time número 1. De verdade: comemorei feito uma besta o título "mundial" de 2000. Pior: quando Javier Castrilli marcou toque de mão do zagueiro da Portuguesa na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, briguei com meio mundo dizendo que ele estava certo. Quando o time sofreu um pequeno acidente de avião na Venezuela em 1996, eu chorei.
Não sei explicar como deixei de torcer pelo Corinthians. Deve ter acontecido gradualmente. Sei que comecei a acompanhar mais os meus times daqui: o Inter e o Brasil de Pelotas. Quando percebi, não comemorei a contratação do Tevez no final de 2004. Porque torcedor tem disso: comemora até contratação. Eu não comemorei a do Tevez, tampouco reclamei. Simplesmente foi insossa pra mim. Foi quando percebi que já não era mais corinthiano.
E, se eu já não me escabelava pelo Corinthians, já tem um ou dois anos que eu já não me escabelo por futebol em geral. Talvez seja o efeito Mazembe, não sei. Sei que essa paixão fervorosa, típica de um torcedor, passou a ser, para mim, algo bobo. Não acho execrável: só não serve para mim. Continuo colorado e xavante, mas deixei de me estressar por causa de futebol e minha calvície agradece. E o que restou de gosto por futebol em mim está indo pras cucuias com essa patacoada entre entidades jurídicas desportivas e clubes de maior ou menor expressão, essa suruba que a Portuguesa foi e, como o seu conterrâneo Manuel, passaram-lhe a mão na bunda e ele não comeu ninguém. Essa confusão sepulta o pouco que restava de credibilidade do futebol brasileiro e que a Copa do Mundo não recuperará: apenas dará aos estrangeiros a ilusão de que nosso futebol merece respeito.
Acho que é melhor eu começar a simpatizar pelo futebol do exterior. Está bem distante e eu não recebo muitas notícias diárias deles. Já ando inclusive buscando alguns clubes para gostar mais. Acho que Borussia Dortmund e Arsenal me parecem uma escolha bacana.
Já meu pai, bem, não conheço histórias dele como torcedor. Sei que ele tentou fazer com que eu torcesse pelo Pelotas (tenho fotos com uma camiseta do time - camiseta que, por sinal, deve estar guardada até hoje) e que estava em Porto Alegre no dia do bicampeonato brasileiro do Inter. Quanto ao Fluminense, eu não sei. Não sei se ele foi ao Maracanã alguma vez para ver o time em ação. Quando eu fiz isso, em 12 de outubro de 2013, o Fluminense empatou com o Grêmio em 1 a 1 e eu não lembrei do meu pai por um só instante - nem quando comemorei o gol do Rafael Sóbis aos 45 minutos do segundo tempo. Estava mais preocupado em curtir o encantamento de estar no Maracanã e xingar o Kléber Gladiador. Mas sei que meu pai era torcedor do Fluminense, talvez tanto quanto eu era torcedor do Corinthians.
Meu pai morreu há 20 anos e, hoje, eu tenho mais vergonha de dizer que ele era torcedor do Fluminense do que dizer que eu torcia feito uma mula pelo Corinthians e que hoje talvez eu torça para Borussia Dortmund e Arsenal.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Time sem vergonha (I)
Eu tenho um talento inútil: sei muitos hinos de times de futebol. Inteiros ou excertos, não importa, desde "eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás, eu sou Goiás e vou gritar", ou "Atlético! Atlético! Conhecemos teu valor! E a camisa rubro-negra só se veste por amor!", ou "e a torcida reunida até parece a do Fla-Flu, Bangu, Bangu, Bangu", até hinos inteiros como os do Inter e o do Brasil de Pelotas: eu sei hinos demais. Um dos meus preferidos é o do Fluminense. Acho que só não é o hino mais bonito do Brasil por um único defeito: o próprio Fluminense. Dentre todos os hinos, o do Fluminense é aquele que menos combina com o próprio clube. E não me refiro à parte que diz clube que orgulha o Brasil, retumbante de glórias e vitórias mil, afinal o Fluminense, dos grandes clubes brasileiros, é o que tem menos títulos internacionais - ganhar ou perder faz parte do esporte.
Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão... é um ótimo início, simples e direto. Mas logo a seguir ele começa a destoar: é impossível cantar fascina pela sua disciplina sem imaginar o João Kléber saltando do teto aos berros de "pára pára pára pára!"
Rebaixado pela primeira vez em 1996, o Fluminense se aproveitou de um esquema de corrupção no futebol (que veio à tona somente em 1997) para se livrar da Série B de 1997 na marra. Sem merecimento, jogou novamente a Série A em 1997 - onde, sem futebol decente, foi novamente rebaixado. Dessa vez sem esquema de arbitragem pra ajudar, o clube jogou a Série B em 1998 e, como jogou novamente sem futebol decente, foi rebaixado à Série C, que jogou em 1999 com um futebol minimamente decente, sagrando-se campeão e credenciando-se para disputar a Série B. Mas disputou o equivalente à Série A na estapafúrdia Copa João Havelange de 2000, pulando etapas como o Mario achando as flautas mágicas no Super Mario Bros 3. E agora, em 2013, apenas 1 ano depois de ter sido campeão nacional (com muita ajuda da arbitragem) e novamente sem futebol decente, o Fluminense foi novamente rebaixado. Mas pelo visto vai escapar, porque sem mais essa nem aquela, descobriram por algum acaso misterioso da vida que um outro clube usou um jogador que não podia jogar um jogo.
Ah, Fluminense, tenha dó. Quem foge das consequências da derrota é incapaz de fascinar pela disciplina.
Lá pelas tantas o hino do Fluminense diz vence o Fluminense, com o verde da esperança... esperança? Pode ser verde de dólar, de real, de euro. Verde da logomarca da Unimed. Pode ser até verde de maconha. Mas "esperança"? Tamanha covardia em assumir a própria fraqueza não está nem perto de ser sinônimo de "esperança". Pois quem espera sempre alcança. Puxa cara, devia ter lembrado disso quando ganhou a Série C. Foi mais apressado que o Ronaldo pedindo a Daniela Cicarelli em casamento.
Que tal um hino novo, Fluminense? Um que combine com o clube? "Sou tricolor de coração, sou do clube que adora tapetão" me parece um ótimo início.
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Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão... é um ótimo início, simples e direto. Mas logo a seguir ele começa a destoar: é impossível cantar fascina pela sua disciplina sem imaginar o João Kléber saltando do teto aos berros de "pára pára pára pára!"
Rebaixado pela primeira vez em 1996, o Fluminense se aproveitou de um esquema de corrupção no futebol (que veio à tona somente em 1997) para se livrar da Série B de 1997 na marra. Sem merecimento, jogou novamente a Série A em 1997 - onde, sem futebol decente, foi novamente rebaixado. Dessa vez sem esquema de arbitragem pra ajudar, o clube jogou a Série B em 1998 e, como jogou novamente sem futebol decente, foi rebaixado à Série C, que jogou em 1999 com um futebol minimamente decente, sagrando-se campeão e credenciando-se para disputar a Série B. Mas disputou o equivalente à Série A na estapafúrdia Copa João Havelange de 2000, pulando etapas como o Mario achando as flautas mágicas no Super Mario Bros 3. E agora, em 2013, apenas 1 ano depois de ter sido campeão nacional (com muita ajuda da arbitragem) e novamente sem futebol decente, o Fluminense foi novamente rebaixado. Mas pelo visto vai escapar, porque sem mais essa nem aquela, descobriram por algum acaso misterioso da vida que um outro clube usou um jogador que não podia jogar um jogo.
Ah, Fluminense, tenha dó. Quem foge das consequências da derrota é incapaz de fascinar pela disciplina.
Lá pelas tantas o hino do Fluminense diz vence o Fluminense, com o verde da esperança... esperança? Pode ser verde de dólar, de real, de euro. Verde da logomarca da Unimed. Pode ser até verde de maconha. Mas "esperança"? Tamanha covardia em assumir a própria fraqueza não está nem perto de ser sinônimo de "esperança". Pois quem espera sempre alcança. Puxa cara, devia ter lembrado disso quando ganhou a Série C. Foi mais apressado que o Ronaldo pedindo a Daniela Cicarelli em casamento.
Que tal um hino novo, Fluminense? Um que combine com o clube? "Sou tricolor de coração, sou do clube que adora tapetão" me parece um ótimo início.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Orgulho do papai
Passavam das sete da noite quando Gilmar botou a chave na fechadura para abrir a porta de casa. Chegava no horário habitual, após sair da empresa de informática onde trabalhava fazendo manutenções dos mais diversos tipos - de hardware a software. Era um nerd convicto. O horário que chegou em casa não era surpresa, tanto que ouviu uma voz infantil dizer, sem muita empolgação: "manhê, o pai chegou."
Era o filho mais velho, de 5 anos, que estava sentado no chão da sala com o irmão mais novo, de 4. Gilmar deu em cada um deles um beijo de "olá, cheguei bem, é bom ver vocês", o que interrompeu a atividade das crianças naquele momento: escolher uma brincadeira.
- Do que tu quer brincar? - perguntou o mais velho.
- De computador!
- Boa! Faz de conta que eu sou um computador da Apple que tá com problema no processador e tu é um computador da IBM que precisa fazer backup!
- Tá!
Gilmar sorriu e continuava sem entender como as pessoas achavam ruim que as crianças gastassem tanto tempo brincando de computador.
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Era o filho mais velho, de 5 anos, que estava sentado no chão da sala com o irmão mais novo, de 4. Gilmar deu em cada um deles um beijo de "olá, cheguei bem, é bom ver vocês", o que interrompeu a atividade das crianças naquele momento: escolher uma brincadeira.
- Do que tu quer brincar? - perguntou o mais velho.
- De computador!
- Boa! Faz de conta que eu sou um computador da Apple que tá com problema no processador e tu é um computador da IBM que precisa fazer backup!
- Tá!
Gilmar sorriu e continuava sem entender como as pessoas achavam ruim que as crianças gastassem tanto tempo brincando de computador.
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Motorista legal
Trafegava pela pista da direita, a uma velocidade de 32km/h. Não que percebesse isso com tanta precisão - olhou de revesgueio para o velocímetro e viu o ponteiro um pouco além da marca de 30km/h. E olhou de revesgueio porque sabia que tinha que manter a atenção no trânsito. Vai que surge uma criança correndo e atravessa a rua? Vai que um ciclista se desequilibra?
Vinha tranquilo, deixando a pista da esquerda livre para alguém mais apressado, que quisesse arriscar uma multa por excesso de velocidade. Não era o caso dele. Era um motorista legal - tão legal que dirigia com as duas mãos no volante e era um dos poucos na cidade que parava na faixa de segurança, para deixar os pedestres atravessarem, como estava fazendo agora. O bom de ser motorista legal é incentivar os outros a serem também: ao parar na faixa de segurança, viu que o carro que vinha na pista da esquerda também parou. Estava satisfeito: dera o exemplo. Agora todos os pedestres podiam atravessar com tranquilidade. A mãe de mãos dadas com seu filho, o idoso que caminhava com alguma dificuldade, a senhora carregada com sacolas de compras e, na frente de todos, sua ex-namorada.
Poxa, também não precisava exagerar. Era isso que recebia como recompensa por ser um motorista legal? Permitir a travessia da ex-namorada? Não precisava de tanto. A moça lhe havia feito perceber como o corpo humano é estranho: entregara-se a ela de coração, ela lhe deu um pé na bunda e ele ficou com uma tremenda dor de cotovelo. Porém o tempo é o tempo, ajeita o corpo humano com paciência e ele se recuperou. Mas não é porque estava recuperado que ele podia ou precisava parar na faixa de segurança para ela, justo ela, atravessar. Se tivesse visto que era ela, não tinha parado. Não que fosse atropelar, só não precisava ter feito essa gentileza logo pra ela.
O pior é que ela viu que ele tinha parado. E ele viu que ela viu. Bosta. Agora ela ia pensar que ele ainda estava mal por ela, que ele ainda gostava dela e isso massagearia o ego dela e massacraria o dele, faria ela se sentir poderosa. Bosta. Ainda atravessou sorrindo. Bosta, bosta, bosta!
Isso não podia ficar assim. Tinha que fazer alguma coisa para desfazer o mal entendido. Não podia mandar uma mensagem pela internet pra ela, porque significaria estar se rebaixando, correndo atrás dela. Seria um atestado de que ainda sente algo por ela, mas não sente! Bem, um pouco de rancor, talvez. Descer do carro para explicar tudo a ela estava fora de cogitação, porque ela encararia isso como uma atitude desesperada. Claro, também ia deixar o carro abandonado no meio da rua e poderia morrer na contramão atrapalhando o tráfego - o que seria muito pior, porque ela gosta de Chico Buarque. O que fazer? O que fazer?! Eis que, de repente, teve uma ideia.
No outro dia, circulava com um grande adesivo colado no vidro traseiro dizendo "Cuidado! Eu freio para animais!"
Continuava sendo um motorista legal e não apelou para adesivos da família feliz.
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Vinha tranquilo, deixando a pista da esquerda livre para alguém mais apressado, que quisesse arriscar uma multa por excesso de velocidade. Não era o caso dele. Era um motorista legal - tão legal que dirigia com as duas mãos no volante e era um dos poucos na cidade que parava na faixa de segurança, para deixar os pedestres atravessarem, como estava fazendo agora. O bom de ser motorista legal é incentivar os outros a serem também: ao parar na faixa de segurança, viu que o carro que vinha na pista da esquerda também parou. Estava satisfeito: dera o exemplo. Agora todos os pedestres podiam atravessar com tranquilidade. A mãe de mãos dadas com seu filho, o idoso que caminhava com alguma dificuldade, a senhora carregada com sacolas de compras e, na frente de todos, sua ex-namorada.
Poxa, também não precisava exagerar. Era isso que recebia como recompensa por ser um motorista legal? Permitir a travessia da ex-namorada? Não precisava de tanto. A moça lhe havia feito perceber como o corpo humano é estranho: entregara-se a ela de coração, ela lhe deu um pé na bunda e ele ficou com uma tremenda dor de cotovelo. Porém o tempo é o tempo, ajeita o corpo humano com paciência e ele se recuperou. Mas não é porque estava recuperado que ele podia ou precisava parar na faixa de segurança para ela, justo ela, atravessar. Se tivesse visto que era ela, não tinha parado. Não que fosse atropelar, só não precisava ter feito essa gentileza logo pra ela.
O pior é que ela viu que ele tinha parado. E ele viu que ela viu. Bosta. Agora ela ia pensar que ele ainda estava mal por ela, que ele ainda gostava dela e isso massagearia o ego dela e massacraria o dele, faria ela se sentir poderosa. Bosta. Ainda atravessou sorrindo. Bosta, bosta, bosta!
Isso não podia ficar assim. Tinha que fazer alguma coisa para desfazer o mal entendido. Não podia mandar uma mensagem pela internet pra ela, porque significaria estar se rebaixando, correndo atrás dela. Seria um atestado de que ainda sente algo por ela, mas não sente! Bem, um pouco de rancor, talvez. Descer do carro para explicar tudo a ela estava fora de cogitação, porque ela encararia isso como uma atitude desesperada. Claro, também ia deixar o carro abandonado no meio da rua e poderia morrer na contramão atrapalhando o tráfego - o que seria muito pior, porque ela gosta de Chico Buarque. O que fazer? O que fazer?! Eis que, de repente, teve uma ideia.
No outro dia, circulava com um grande adesivo colado no vidro traseiro dizendo "Cuidado! Eu freio para animais!"
Continuava sendo um motorista legal e não apelou para adesivos da família feliz.
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sábado, 2 de novembro de 2013
O humor, uma arte como outra qualquer
Não é nenhuma novidade: Danilo Gentili foi processado pela maior doadora de leite humano do Brasil por causa de piadas que fez sobre a moça em seu programa. Não é novidade como notícia (a informação foi veiculada pela imprensa há 3 ou 4 dias), tampouco como um fato inédito. Não é de hoje que humoristas são processados no Brasil por fazerem piadas - o próprio Danilo Gentili já havia sido processado, assim como Rafinha Bastos já foi processado diversas vezes e, há poucas semanas, Léo Lins foi proibido de entrar no Japão por piadas feitas com a temática do tsunami de 2011. E, é óbvio, o processo mais recente de Danilo Gentili não será o último. Veremos ainda muitos casos de humoristas serem processados por suas piadas. Afinal, ainda há quem não compreenda que o humorista é um artista.
Quando digo "artista", refiro-me à concepção mais usual da palavra: artista é aquele que produz arte. Mozart era artista porque produzia música; Picasso era artista porque produzia pinturas; Oscar Wilde era artista porque produzia literatura. Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Léo Lins são artistas porque produzem humor. Não estou aqui fazendo uma comparação qualitativa da arte de cada um dos citados ("nossa, comparar a genialidade do Fulano com o Sicrano, que é um zé-ninguém..."): Picasso, Oscar Wilde, Mozart, Danilo Gentili, Serginho da Vassoura e o pintor que vende suas obras no calçadão de Copacabana são igualmente artistas. Trata-se, portanto, de identificá-los em um mesmo nicho. Todos são artistas, indiferente da apreciação dedicada às suas obras. Eu não gosto de Oasis, mas não posso negar que os irmãos Gallagher são artistas - eles produzem música.
Não gostar de Oasis causa em mim um certo desinteresse. Por causa desse desinteresse não compro discos da banda, não baixo músicas, não vou a shows e, quando toca uma música deles em uma festa, não danço; aproveito para conversar com alguém ou ir pegar uma cerveja. É o que eu faço quando não gosto de uma arte: não consumo, porque ela não desperta meu interesse.
No recente processo em que Danilo Gentili é réu, a autora afirmou se sentir humilhada por causa da piada: "As pessoas nas ruas têm me chamado de vaca, vaca do Gentili. Parabenizar pelo meu ato, ninguém faz, mas xingar é o que mais acontece nas ruas depois da piada na TV." A humilhação que a autora sentiu afetou suas doações, diminuindo substancialmente o leite materno que ela produzia. Não resta dúvida: é triste que tenha chegado a esse ponto. Isto não se discute. O leite que a mulher doava era importante para vários bebês. Entretanto, responsabilizar o humorista por isso e afirmar que ele foi agressivo é - para dizer pouco - errado.
Em 1774, Johann Wolfgang von Goethe lançou "Os sofrimentos do jovem Werther". Sucedeu que o livro foi apontado como causador de uma onda de suicídios pela Europa. Já em 1986, Ozzy Osbourne foi acusado de causar o suicídio de um jovem por causa da música "Suicide Solution". Em 1990, a banda Judas Priest passou por um caso semelhante: sua música "Better by you, better than me" foi apontada como responsável pelo suicídio de um jovem. Em 2001, a banda Slayer foi absolvida da acusação de incitação à violência (três jovens afirmaram terem se inspirado em músicas da banda para assassinar uma jovem de 15 anos). Dois anos antes, Marilyn Manson foi apontado como inspirador do chamado Massacre de Columbine, quando dois jovens provocaram um tiroteio em uma escola, matando 15 pessoas (incluindo aí os atiradores, que cometeram suicídio) e ferindo outras 24.
Logo, responsabilizar a arte de um artista (e por consequência o próprio artista) por um ato violento não é novidade. O problema é que isto é errado. Responsabilizar a arte - ou o artista que a produziu - por um crime ou atitude antissocial é transferir responsabilidades. Em momento algum Goethe disse que a melhor saída para jovens desiludidos é o suicídio. As músicas dos artistas citados, por mais agressivas que possam parecer, não defendem a ideia de matar como solução para um problema.
Quando há a falta de discernimento de uma pessoa que vê na arte uma motivação para um ato violento, a falha está em não ter dado o dito discernimento para a pessoa até aquele momento. A letra, por mais agressiva que seja, continua sendo apenas uma letra; a sonoridade, por mais pesada e lúgubre que seja, é apenas uma sonoridade. Quando alguém não debate sobre uma manifestação artística de aparência agressiva, há sim o risco deste alguém cometer um delito. E esta é a situação: não há problema em trancar-se em um quarto para ouvir discos do Slayer e do Marilyn Manson. O problema está na falta de um debate esclarecedor sobre aquela arte.
O mesmo ocorre com videogames ou desenhos animados (o Cartoon Network censurou e retirou do ar o desenho "Tom & Jerry"). Não é problema uma criança jogar GTA e depois ver 3 episódios de Tom & Jerry. O problema é a falta de alguém que explique que é errado roubar, atropelar e matar como no jogo, e que fazer o gato engolir um rojão aceso também é errado.
Há quem acredite que a arte deve ser uma arma de contestação, de análise social, de combate às injustiças. Eu concordo. Porém, nem toda arte tem esta característica e nem todo artista manifesta-se com estas intenções. Em todo o universo da pintura, de vez em quando surge um Pablo Picasso, que em meio a sua extensa produção, pinta "Guernica". Em todo o universo literário, surge de vez em quando um Érico Veríssimo, que em meio a toda sua obra escreve "Incidente em Antares"; ou surge um Ernest Hemingway, que em meio à toda sua obra escreve "Por quem os sinos dobram". Na música, de vez em quando surge um Scorpions, que em meio a sua discografia compõe "Under the same sun". Com o humor não é diferente. Em meio a todo o universo humorístico, surge de vez em quando um Chico Anysio que, em meio à sua extensa obra de cerca de 200 personagens, cria o Professor Raymundo ou Justo Veríssimo. Assim como cria um ícone do machismo cruel, como Nazareno.
Como já disse, a piada do Danilo Gentili causou, sim, um problema: a doadora de leite foi alvo de humilhações que causaram a diminuição de suas doações. Ora, o culpado não é o autor da piada e sim quem acha que a piada é uma manifestação da verdade, uma opinião balizada que corrobora atitudes agressivas e, por isso, busca rebaixar a doadora.
Uma piada é, tão somente, uma manifestação artística e assim deve ser tratada. O grande problema é que o entendimento do humor como arte (às vezes por ignorância e às vezes por pura birra) está ainda muito distante.
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Quando digo "artista", refiro-me à concepção mais usual da palavra: artista é aquele que produz arte. Mozart era artista porque produzia música; Picasso era artista porque produzia pinturas; Oscar Wilde era artista porque produzia literatura. Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Léo Lins são artistas porque produzem humor. Não estou aqui fazendo uma comparação qualitativa da arte de cada um dos citados ("nossa, comparar a genialidade do Fulano com o Sicrano, que é um zé-ninguém..."): Picasso, Oscar Wilde, Mozart, Danilo Gentili, Serginho da Vassoura e o pintor que vende suas obras no calçadão de Copacabana são igualmente artistas. Trata-se, portanto, de identificá-los em um mesmo nicho. Todos são artistas, indiferente da apreciação dedicada às suas obras. Eu não gosto de Oasis, mas não posso negar que os irmãos Gallagher são artistas - eles produzem música.
Não gostar de Oasis causa em mim um certo desinteresse. Por causa desse desinteresse não compro discos da banda, não baixo músicas, não vou a shows e, quando toca uma música deles em uma festa, não danço; aproveito para conversar com alguém ou ir pegar uma cerveja. É o que eu faço quando não gosto de uma arte: não consumo, porque ela não desperta meu interesse.
No recente processo em que Danilo Gentili é réu, a autora afirmou se sentir humilhada por causa da piada: "As pessoas nas ruas têm me chamado de vaca, vaca do Gentili. Parabenizar pelo meu ato, ninguém faz, mas xingar é o que mais acontece nas ruas depois da piada na TV." A humilhação que a autora sentiu afetou suas doações, diminuindo substancialmente o leite materno que ela produzia. Não resta dúvida: é triste que tenha chegado a esse ponto. Isto não se discute. O leite que a mulher doava era importante para vários bebês. Entretanto, responsabilizar o humorista por isso e afirmar que ele foi agressivo é - para dizer pouco - errado.
Em 1774, Johann Wolfgang von Goethe lançou "Os sofrimentos do jovem Werther". Sucedeu que o livro foi apontado como causador de uma onda de suicídios pela Europa. Já em 1986, Ozzy Osbourne foi acusado de causar o suicídio de um jovem por causa da música "Suicide Solution". Em 1990, a banda Judas Priest passou por um caso semelhante: sua música "Better by you, better than me" foi apontada como responsável pelo suicídio de um jovem. Em 2001, a banda Slayer foi absolvida da acusação de incitação à violência (três jovens afirmaram terem se inspirado em músicas da banda para assassinar uma jovem de 15 anos). Dois anos antes, Marilyn Manson foi apontado como inspirador do chamado Massacre de Columbine, quando dois jovens provocaram um tiroteio em uma escola, matando 15 pessoas (incluindo aí os atiradores, que cometeram suicídio) e ferindo outras 24.
Logo, responsabilizar a arte de um artista (e por consequência o próprio artista) por um ato violento não é novidade. O problema é que isto é errado. Responsabilizar a arte - ou o artista que a produziu - por um crime ou atitude antissocial é transferir responsabilidades. Em momento algum Goethe disse que a melhor saída para jovens desiludidos é o suicídio. As músicas dos artistas citados, por mais agressivas que possam parecer, não defendem a ideia de matar como solução para um problema.
Quando há a falta de discernimento de uma pessoa que vê na arte uma motivação para um ato violento, a falha está em não ter dado o dito discernimento para a pessoa até aquele momento. A letra, por mais agressiva que seja, continua sendo apenas uma letra; a sonoridade, por mais pesada e lúgubre que seja, é apenas uma sonoridade. Quando alguém não debate sobre uma manifestação artística de aparência agressiva, há sim o risco deste alguém cometer um delito. E esta é a situação: não há problema em trancar-se em um quarto para ouvir discos do Slayer e do Marilyn Manson. O problema está na falta de um debate esclarecedor sobre aquela arte.
O mesmo ocorre com videogames ou desenhos animados (o Cartoon Network censurou e retirou do ar o desenho "Tom & Jerry"). Não é problema uma criança jogar GTA e depois ver 3 episódios de Tom & Jerry. O problema é a falta de alguém que explique que é errado roubar, atropelar e matar como no jogo, e que fazer o gato engolir um rojão aceso também é errado.
Há quem acredite que a arte deve ser uma arma de contestação, de análise social, de combate às injustiças. Eu concordo. Porém, nem toda arte tem esta característica e nem todo artista manifesta-se com estas intenções. Em todo o universo da pintura, de vez em quando surge um Pablo Picasso, que em meio a sua extensa produção, pinta "Guernica". Em todo o universo literário, surge de vez em quando um Érico Veríssimo, que em meio a toda sua obra escreve "Incidente em Antares"; ou surge um Ernest Hemingway, que em meio à toda sua obra escreve "Por quem os sinos dobram". Na música, de vez em quando surge um Scorpions, que em meio a sua discografia compõe "Under the same sun". Com o humor não é diferente. Em meio a todo o universo humorístico, surge de vez em quando um Chico Anysio que, em meio à sua extensa obra de cerca de 200 personagens, cria o Professor Raymundo ou Justo Veríssimo. Assim como cria um ícone do machismo cruel, como Nazareno.
Como já disse, a piada do Danilo Gentili causou, sim, um problema: a doadora de leite foi alvo de humilhações que causaram a diminuição de suas doações. Ora, o culpado não é o autor da piada e sim quem acha que a piada é uma manifestação da verdade, uma opinião balizada que corrobora atitudes agressivas e, por isso, busca rebaixar a doadora.
Uma piada é, tão somente, uma manifestação artística e assim deve ser tratada. O grande problema é que o entendimento do humor como arte (às vezes por ignorância e às vezes por pura birra) está ainda muito distante.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Lu Patinadora
- A gente tá recebendo aqui o Eugênio, que vai contar pra gente como é que ele descobriu. Eugênio, conta pra quem tá nos assistindo.- Ah, então Fátima, na verdade eu descobri quando ainda criança. Eu ganhava carrinhos, bonequinhos, bolas, mas achava muito mais interessante os brinquedos das meninas, sabe?
- É mesmo? Você preferia brincar com coisas que não eram de meninos?
- Exatamente. Eu não achava graça em empurrar o carrinho, em pegar bonequinho e brincar de luta. Futebol, então... nossa, nunca vi graça. Sabe que eu lembro que, quando ganhei minha primeira bola, eu chorei...
- Chorou? Nossa, mas então não gostava mesmo... mas não chorou de alegria?
- Não! Eu não gostava mesmo...
- Você me desculpe a brincadeira... mas então, você brincava com coisas de menina?
- Isso. Eu tinha uma priminha da mesma idade que eu e sempre invejei os brinquedos dela. Ela tinha uma boneca que falava "mamãe", e a primeira vez que eu vi aquilo fiquei encantado...
- Que bonitinho...
- E ela também tinha um cachorrinho que saltava... era um cachorrinho bem fofo. A gente ligava, ele dava uns 4 latidinhos fininhos e depois dava um susto na gente! Ele dava um salto mortal... eu achava o máximo.
- Sim! Minha filha teve esse cachorrinho, teve esse mesmo susto...
- E tinha uma boneca que dava risadinha, eu achava aquilo lindo... e lembra da Lu Patinadora? De repente alguém aqui da plateia lembra, era uma boneca que andava de patins. Não era o máximo gente? Ah, a Lu Patinadora era uma coisa simplesmente maravilhosa!
- Sim, claro... olha, tem um monte de gente concordando!
- Pois é. E foi isso. Acho que a Lu Patinadora mudou minha vida mesmo...
- Muito interessante. Isso só reforça que essa coisa já vem de criança, né? Não se trata exatamente de uma escolha...
- Pois é, foi desde criança mesmo. Digamos que foi por causa da Lu Patinadora que eu resolvi seguir nessa área da robótica.
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sábado, 7 de setembro de 2013
Sinal verde
Aproximava-se de um cruzamento. Seguia em velocidade constante, motivado pela cor verde da sinaleira, mas quando a luz amarela acendeu, abriu um sorriso de escárnio: de novo. Claro, de novo. Era só o que faltava: 15 minutos depois de ter levado um fora, é evidente que todas as sinaleiras fechariam quando ele estivesse prestes a passar pelo cruzamento. Sem outra alternativa, freou o carro, obedecendo a sinalização. Quer dizer, até tinha outra alternativa. Mas não seria muito saudável e a situação nem era tão desesperadora.
"Eu nunca pensei na nossa relação de outra forma." Foi uma das tantas frases que ela usou como resposta à confissão dele ("eu tenho muita vontade de te beijar"). E pensar que houve um tempo que ela queria saber o que era o amor.
- I wanna know what love iiis..., lembra? - Claro que lembrava. Um clássico, um desejo de todos, uma curiosidade que faz inúmeras vítimas diariamente. Ela, inclusive: cantou o verso I want you to show me - pra outra pessoa. Mas esqueceu de cantar outra música: What is love? Baby, don't hurt me, don't hurt me... Esqueceu? Ou simplesmente não cantou porque sabia que acabaria refém de uma vontade incontrolável de dançar, o que enfraqueceria a súplica - ou, pior, distorceria seu apelo? "Não pise nos meus pés enquanto estivermos dançando, porque dói."
E, apesar do apelo, tombou vítima da curiosidade. Machucou-se crendo que lhe mostrariam o que é o amor. Dos males o menor: não caiu na asneira de achar que love is a temple, love a higher law. Quem é o U2 pra ensinar alguma coisa a alguém? E sobre o amor! Quanta audácia, Bono. Vítima da curiosidade, enferma porque ferida com gravidade, negou-se a uma nova experiência. "Eu não penso em mais relação alguma desde a última. Quem quer se seja o próximo vai sofrer com isso.", ela lhe disse.
Love hurts, love scars, love wounds' and mars, foi o que ela descobriu. Se apurasse os ouvidos na sua presença, perceberia que os pássaros funcionavam como uma orquestra a interpretar John Paul Young: love is in the air. Assim é a busca pelo amor: uma breguice sem tamanho em direção a outra breguice sem igual.
Sinal verde de novo. Acelerou o carro, sem perceber que o rádio tocava a resposta correta:
Love is only a feeling
Anyway...
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"Eu nunca pensei na nossa relação de outra forma." Foi uma das tantas frases que ela usou como resposta à confissão dele ("eu tenho muita vontade de te beijar"). E pensar que houve um tempo que ela queria saber o que era o amor.
- I wanna know what love iiis..., lembra? - Claro que lembrava. Um clássico, um desejo de todos, uma curiosidade que faz inúmeras vítimas diariamente. Ela, inclusive: cantou o verso I want you to show me - pra outra pessoa. Mas esqueceu de cantar outra música: What is love? Baby, don't hurt me, don't hurt me... Esqueceu? Ou simplesmente não cantou porque sabia que acabaria refém de uma vontade incontrolável de dançar, o que enfraqueceria a súplica - ou, pior, distorceria seu apelo? "Não pise nos meus pés enquanto estivermos dançando, porque dói."
E, apesar do apelo, tombou vítima da curiosidade. Machucou-se crendo que lhe mostrariam o que é o amor. Dos males o menor: não caiu na asneira de achar que love is a temple, love a higher law. Quem é o U2 pra ensinar alguma coisa a alguém? E sobre o amor! Quanta audácia, Bono. Vítima da curiosidade, enferma porque ferida com gravidade, negou-se a uma nova experiência. "Eu não penso em mais relação alguma desde a última. Quem quer se seja o próximo vai sofrer com isso.", ela lhe disse.
Love hurts, love scars, love wounds' and mars, foi o que ela descobriu. Se apurasse os ouvidos na sua presença, perceberia que os pássaros funcionavam como uma orquestra a interpretar John Paul Young: love is in the air. Assim é a busca pelo amor: uma breguice sem tamanho em direção a outra breguice sem igual.
Sinal verde de novo. Acelerou o carro, sem perceber que o rádio tocava a resposta correta:
Love is only a feeling
Anyway...
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013
O arroto salvador
O mundo é um lugar muito confuso. Isso está em nossas caras desde bem antes de termos dentes ou de caminharmos: quando nenês, somos incentivados a arrotar no colo de nossas mães (às vezes pais) após uma sessão de amamentação - mesmo que isso resulte em um vômito espalhado no ombro, orelha, colo e o que mais tiver a ousadia de estar perto da boca de um nenê. O problema é que, algum tempo depois, somos severamente censurados ao arrotar. Depois de levarmos tapinhas nas costas e ouvirmos "isso!" no colo de nossos pais, passamos a ouvir "que falta de respeito fazer isso na frente dos outros! Que nojo! Seu porco!" pelo mesmo ato: arrotar. Que mundo estranho!
Talvez seja o arroto um elementos vitais que fez com que eu me tornasse um ser pensante e bastante crítico, até um pouco contestador. Refrigerante, água, cerveja, chimarrão, comida ou mesmo ar, não importa: eu arroto mesmo. Nunca dei atenção às repreensões que as pessoas fazem aos gases que eu disparo sem muita delicadeza boca afora. Gosto de me justificar com argumentos culturais: "No Oriente Médio, o arroto é sinal de boa educação. Quando arrota, o cidadão está mostrando que apreciou a comida ou a bebida que lhe serviram." Por pura lógica, as pessoas contra-argumentam dizendo "tu tá no Brasil e não no Oriente Médio, seu porco." É então que eu desfiro uma pergunta com força de golpe final: "prefere que o gás saia por cima ou por baixo?"
A verdade é que eu já tive provas que o arroto, por si só, é um argumento incomparável em uma discussão. Houve essa vez em um almoço, por exemplo. Minha mãe, sentada na ponta da mesa como uma boa chefa de família, estava ladeada por mim, à sua esquerda, e pela minha irmã, à sua direita. Não recordo qual era o cardápio, mas asseguro que estava saborosíssimo, uma vez que mamãe possui um conhecimento culinário de fazer inveja a qualquer um - principalmente a mim, um especialista em abrir enlatados e alimentos congelados pré-prontos. Seja lá o que estivéssemos comendo naquele almoço, estava de lamber os beiços. Prova disso é que estávamos calados, concentrados em mastigar e desfrutar o sabor do alimento preparado por mamãe. O silêncio só foi rompido por um arroto que veio do flanco esquerdo da mesa, onde minha boca tinha acabado de receber uns goles de refrigerante de cola não alcoólico.
Não é sem orgulho que assumo a autoria daquele arroto: veio do fundo do coração, como a mais inspirada composição de Tom Jobim. Mas antes eu tivesse mantido o silêncio da mesa... o arroto que disparei causou um deslocamento de ar que quase atirou minha família pela janela. Minha mãezinha, talvez tomada pelo susto causado pelo barulho de terremoto que não veio de um terremoto, deu início a um discurso repreensivo que Hitler jamais ouviria de Joaquim Barbosa.
- Mas que falta de educação! Que horror! Isso é jeito de se portar na mesa?! Eu tô cansada disso, isso é uma sem-vergonhice! - eu imagino que as aulas de natação e hidroginástica que mamãe frequentava naquele tempo estivessem dando resultado, porque ela sequer parava para tomar fôlego entre as frases. "Braba" é apelido. - Deus me livre, imagina se tem algum convidado na mesa...
- Mas não...
- Cala a boca que eu não terminei! - ela me interrompeu com mais eficácia do que aquele tiro que interrompeu o desfile de carro de John F. Kennedy - Isso não é coisa que se faça! Até parece que eu não dou educação a vocês! Será possível que não se pode nem almoçar em paz? Vocês sabem que eu detesto almoçar sozinha, mas puta que pariu, almoçar acompanhada e ter isso é demais pra minha cabeça! Eu não vou aceitar isso! Vocês não foram criados pra isso...
Era tão grave que minha mãe falara um palavrão em plena mesa. Metade de mim ouvia - a outra metade se arrependia de ter arrotado, de ter aprendido a arrotar, de ter tomado refrigerante, de ter nascido. Mamãe tinha o cenho franzido... que digo? Sua expressão de raiva naquele momento era a prova que o diabo existia e ainda por cima era artista plástico. Eu estava com os olhos abaixados para a comida, mas já não enxergava a comida. Já tinha perdido a fome. Eu nunca mais ia arrotar na vida. Eu nunca mais ia beber nada na vida. Eu ia processar a Coca-Cola e seria responsável pela derrocada do império de bebidas industrializadas no mundo inteiro. Porque meu arroto em plena mesa durante o almoço desencadeara um discurso raivoso da minha mãe, que já durava 5 minutos, contra todas as manifestações corporais que resultavam em ruídos maiores que 2 decibéis. Nenhum erro poderia ser pior. Se minha irmã subisse na mesa pra fazer um striptease usando a cruz de Cristo como poledance, minha mãe não estaria tão raivosa.
- Eu não quero mais saber disso! Vocês entenderam? - ela estava vermelha de raiva e roxa de falta de ar. E antes que eu pudesse articular um simples e borrado "sim" como forma de resposta, fui surpreendido por um novo arroto.
Da minha irmã.
Mas não foi um arroto qualquer. Se meu arroto veio do coração, minha irmã arrotou com a alma. E não com qualquer alma: provavelmente ela invocou a alma de todos os nossos antepassados enquanto mamãe discursava. Se meu arroto era inspirado como uma composição de Tom Jobim, Shakespeare teria colocado o arroto da minha irmã na boca de Julieta durante um beijo em Romeu. Eu estava tão ocupado ficando envergonhado com meu arroto que não percebi que minha irmã estava absolutamente quieta, talvez mais quieta que eu e talvez juntando forças para emitir aquela obra prima. Ela fez o meu arroto parecer um mero soluço. Aquele arroto foi tão destruidor que até hoje eu não sei o que faltou para a Defesa Civil interditar o bairro inteiro.
Nenhuma outra resposta seria mais eficaz como tréplica. Foi o melhor e mais científico argumento não apenas contra o discurso colérico de mamãe, mas contra qualquer discurso anti-arroto. Prova disso é que ela mal teve tempo de retomar o fôlego após a mijada verbal que me aplicou. Não sei se já havia esgotado suas energias; fato é que agora ela ocupava-se em rir. Ria de se contorcer. De faltar o ar, de correr as lágrimas, de doer o corpo. Minha irmã e eu, é claro, ríamos juntos. Triunfantes.
A parte ruim é que rimos tanto que a comida esfriou.
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Talvez seja o arroto um elementos vitais que fez com que eu me tornasse um ser pensante e bastante crítico, até um pouco contestador. Refrigerante, água, cerveja, chimarrão, comida ou mesmo ar, não importa: eu arroto mesmo. Nunca dei atenção às repreensões que as pessoas fazem aos gases que eu disparo sem muita delicadeza boca afora. Gosto de me justificar com argumentos culturais: "No Oriente Médio, o arroto é sinal de boa educação. Quando arrota, o cidadão está mostrando que apreciou a comida ou a bebida que lhe serviram." Por pura lógica, as pessoas contra-argumentam dizendo "tu tá no Brasil e não no Oriente Médio, seu porco." É então que eu desfiro uma pergunta com força de golpe final: "prefere que o gás saia por cima ou por baixo?"
A verdade é que eu já tive provas que o arroto, por si só, é um argumento incomparável em uma discussão. Houve essa vez em um almoço, por exemplo. Minha mãe, sentada na ponta da mesa como uma boa chefa de família, estava ladeada por mim, à sua esquerda, e pela minha irmã, à sua direita. Não recordo qual era o cardápio, mas asseguro que estava saborosíssimo, uma vez que mamãe possui um conhecimento culinário de fazer inveja a qualquer um - principalmente a mim, um especialista em abrir enlatados e alimentos congelados pré-prontos. Seja lá o que estivéssemos comendo naquele almoço, estava de lamber os beiços. Prova disso é que estávamos calados, concentrados em mastigar e desfrutar o sabor do alimento preparado por mamãe. O silêncio só foi rompido por um arroto que veio do flanco esquerdo da mesa, onde minha boca tinha acabado de receber uns goles de refrigerante de cola não alcoólico.
Não é sem orgulho que assumo a autoria daquele arroto: veio do fundo do coração, como a mais inspirada composição de Tom Jobim. Mas antes eu tivesse mantido o silêncio da mesa... o arroto que disparei causou um deslocamento de ar que quase atirou minha família pela janela. Minha mãezinha, talvez tomada pelo susto causado pelo barulho de terremoto que não veio de um terremoto, deu início a um discurso repreensivo que Hitler jamais ouviria de Joaquim Barbosa.
- Mas que falta de educação! Que horror! Isso é jeito de se portar na mesa?! Eu tô cansada disso, isso é uma sem-vergonhice! - eu imagino que as aulas de natação e hidroginástica que mamãe frequentava naquele tempo estivessem dando resultado, porque ela sequer parava para tomar fôlego entre as frases. "Braba" é apelido. - Deus me livre, imagina se tem algum convidado na mesa...
- Mas não...
- Cala a boca que eu não terminei! - ela me interrompeu com mais eficácia do que aquele tiro que interrompeu o desfile de carro de John F. Kennedy - Isso não é coisa que se faça! Até parece que eu não dou educação a vocês! Será possível que não se pode nem almoçar em paz? Vocês sabem que eu detesto almoçar sozinha, mas puta que pariu, almoçar acompanhada e ter isso é demais pra minha cabeça! Eu não vou aceitar isso! Vocês não foram criados pra isso...
Era tão grave que minha mãe falara um palavrão em plena mesa. Metade de mim ouvia - a outra metade se arrependia de ter arrotado, de ter aprendido a arrotar, de ter tomado refrigerante, de ter nascido. Mamãe tinha o cenho franzido... que digo? Sua expressão de raiva naquele momento era a prova que o diabo existia e ainda por cima era artista plástico. Eu estava com os olhos abaixados para a comida, mas já não enxergava a comida. Já tinha perdido a fome. Eu nunca mais ia arrotar na vida. Eu nunca mais ia beber nada na vida. Eu ia processar a Coca-Cola e seria responsável pela derrocada do império de bebidas industrializadas no mundo inteiro. Porque meu arroto em plena mesa durante o almoço desencadeara um discurso raivoso da minha mãe, que já durava 5 minutos, contra todas as manifestações corporais que resultavam em ruídos maiores que 2 decibéis. Nenhum erro poderia ser pior. Se minha irmã subisse na mesa pra fazer um striptease usando a cruz de Cristo como poledance, minha mãe não estaria tão raivosa.
- Eu não quero mais saber disso! Vocês entenderam? - ela estava vermelha de raiva e roxa de falta de ar. E antes que eu pudesse articular um simples e borrado "sim" como forma de resposta, fui surpreendido por um novo arroto.
Da minha irmã.
Mas não foi um arroto qualquer. Se meu arroto veio do coração, minha irmã arrotou com a alma. E não com qualquer alma: provavelmente ela invocou a alma de todos os nossos antepassados enquanto mamãe discursava. Se meu arroto era inspirado como uma composição de Tom Jobim, Shakespeare teria colocado o arroto da minha irmã na boca de Julieta durante um beijo em Romeu. Eu estava tão ocupado ficando envergonhado com meu arroto que não percebi que minha irmã estava absolutamente quieta, talvez mais quieta que eu e talvez juntando forças para emitir aquela obra prima. Ela fez o meu arroto parecer um mero soluço. Aquele arroto foi tão destruidor que até hoje eu não sei o que faltou para a Defesa Civil interditar o bairro inteiro.
Nenhuma outra resposta seria mais eficaz como tréplica. Foi o melhor e mais científico argumento não apenas contra o discurso colérico de mamãe, mas contra qualquer discurso anti-arroto. Prova disso é que ela mal teve tempo de retomar o fôlego após a mijada verbal que me aplicou. Não sei se já havia esgotado suas energias; fato é que agora ela ocupava-se em rir. Ria de se contorcer. De faltar o ar, de correr as lágrimas, de doer o corpo. Minha irmã e eu, é claro, ríamos juntos. Triunfantes.
A parte ruim é que rimos tanto que a comida esfriou.
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sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Fácil
- Tu fala como se fosse possível decidir parar de gostar de alguém.
- Mas é possível.
- Claro que não. Essas coisas a gente não escolhe.
- Escolhe sim. Essas coisas são como parar de fumar, sabe? É tão fácil que tem gente que pára de fumar 2 ou 3 vezes por semana.
- Ai, chato. É sério, essas coisas a gente não escolhe. Não dá pra mandar.
- Dá sim.
- Já tentou parar de gostar de alguém? Aposto que não consegue.
- Eu consigo.
- Já tentou?
- Já. Faço isso sempre.
- Sempre com que frequência?
- Sempre que eu te vejo.
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- Mas é possível.
- Claro que não. Essas coisas a gente não escolhe.
- Escolhe sim. Essas coisas são como parar de fumar, sabe? É tão fácil que tem gente que pára de fumar 2 ou 3 vezes por semana.
- Ai, chato. É sério, essas coisas a gente não escolhe. Não dá pra mandar.
- Dá sim.
- Já tentou parar de gostar de alguém? Aposto que não consegue.
- Eu consigo.
- Já tentou?
- Já. Faço isso sempre.
- Sempre com que frequência?
- Sempre que eu te vejo.
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Skol Design
Bonitas como uma ressaca
Há uma ironia peculiarmente bizarra na nova promoção da Skol, "Skol Design". São três kits diferentes - kit casa, kit quarto e kit mesa -, em edição limitada, sendo vendidas apenas pela internet.
De acordo com a propaganda veiculada na TV, as garrafas personalizadas são para combater a destruidora de interiores que responde como decoradora de interiores que pode ser uma namorada. Para evitar um cenário "família fofolete composta por amorzinho e amorzão", a garrafa personalizada seria ideal: vigorosa, máscula, viril, cruza do Odvan com o Materazzi. Uma pena que falharam miseravelmente, porque a garrafa não é vigorosa, máscula, nem viril: é simplesmente tosca. Feia pra dedéu. E feiúra não é sinônimo de virilidade. Se fosse, a Regina Casé era zagueira titular do Boca Juniors.
Mas nada disso é problema, porque para usar a garrafa como objeto de decoração, ela deve ter seu líquido consumido antes. E eis a grande e irônica sacada: só mesmo bêbado pra usar esse negócio como objeto de decoração.
- Cara, que ressaca...
- Pois é por isso que eu tô te ligando. Pra saber como tu tá.
- Péssimo. Baita dor de cabeça.
- Te falei pra pegar leve. Se comportou, ao menos?
- Nada. Liguei pra Julinha...
- Ah, tudo bem...
- ... na frente da Fernanda...
- Ela vai entender...
- ... pra falar sobre a Cris...
- Que confusão...
- ... que devia estar puta porque eu vomitei no cachorro dela.
- Ah, isso acontece.
- Bebi todas, cara. Até aquelas garrafinhas doidas que eu comprei pela internet. E o pior tu não sabe.
- O quê?
- Decorei a casa toda com aquelas garrafas.
- Porra, tá vendo? Falei pra tu pegar leve!
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De acordo com a propaganda veiculada na TV, as garrafas personalizadas são para combater a destruidora de interiores que responde como decoradora de interiores que pode ser uma namorada. Para evitar um cenário "família fofolete composta por amorzinho e amorzão", a garrafa personalizada seria ideal: vigorosa, máscula, viril, cruza do Odvan com o Materazzi. Uma pena que falharam miseravelmente, porque a garrafa não é vigorosa, máscula, nem viril: é simplesmente tosca. Feia pra dedéu. E feiúra não é sinônimo de virilidade. Se fosse, a Regina Casé era zagueira titular do Boca Juniors.
Mas nada disso é problema, porque para usar a garrafa como objeto de decoração, ela deve ter seu líquido consumido antes. E eis a grande e irônica sacada: só mesmo bêbado pra usar esse negócio como objeto de decoração.
- Cara, que ressaca...
- Pois é por isso que eu tô te ligando. Pra saber como tu tá.
- Péssimo. Baita dor de cabeça.
- Te falei pra pegar leve. Se comportou, ao menos?
- Nada. Liguei pra Julinha...
- Ah, tudo bem...
- ... na frente da Fernanda...
- Ela vai entender...
- ... pra falar sobre a Cris...
- Que confusão...
- ... que devia estar puta porque eu vomitei no cachorro dela.
- Ah, isso acontece.
- Bebi todas, cara. Até aquelas garrafinhas doidas que eu comprei pela internet. E o pior tu não sabe.
- O quê?
- Decorei a casa toda com aquelas garrafas.
- Porra, tá vendo? Falei pra tu pegar leve!
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segunda-feira, 15 de julho de 2013
Nome do seu time
"(...) Envie agora o nome do seu time para um-três-um-cinco e receba tudo isto no seu celular!", anunciava a voz empolgada, em tom salvador, na televisão. Atirado no sofá da sala, sozinho em casa, Manoel podia pensar nos três gols que marcou no joguinho de domingo com seus amigos. Mas na verdade dedicara as últimas 2 horas para pensar nos dois gols contra que marcou no mesmo jogo, que definiram uma derrota por 1 gol de diferença.
A voz empolgada do locutor arrancou Manoel do seu devaneio tedioso e o fez sorrir. Enviar o nome do seu time para um-três-um-cinco... que boa ideia - para quem não tem nada a fazer, nem a perder. Agarrou seu celular Samsung e resolveu pregar uma peça. Enviou "Cervegeiros FC" para um-três-um-cinco. Nunca enviariam uma mensagem com informações ou curiosidades do Cervegeiros FC - como a grafia errada do nome do time, obra de um ala-esquerda e um dos fundadores do time, que não tinha muita intimidade com o português. Alertado para o erro, o ala-esquerda disfarçou: "é para diferenciar dos inúmeros cervejeiros desse país. Cervejeiro com 'g', só a gente."
Mas tão logo enviou a mensagem, Manoel se arrependeu. Que burrice. A propaganda esperava que mandassem "Flamengo", "Corinthians" ou "Cruzeiro", mas o Manoel queria notícias do seu time. Sagaz, sagaz demais. Mas o que seus amigos diriam quando ele contasse que enviou "Cervegeiros FC" para um-três-um-cinco? "Que besteira. E ainda gastou crédito à toa, seu burro." Certamente diriam isso. E o pior é que agora ele receberia um monte de propaganda indesejável via SMS por ter enviado "Cervegeiros FC" para um-três-um-cinco. Que burrice. E, para confirmar suas suspeitas, o celular apitou, alertando uma nova mensagem de texto.
Na verdade a mensagem trazia uma informação em primeira mão: "Manoel não joga mais pelo Cervegeiros FC".
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A voz empolgada do locutor arrancou Manoel do seu devaneio tedioso e o fez sorrir. Enviar o nome do seu time para um-três-um-cinco... que boa ideia - para quem não tem nada a fazer, nem a perder. Agarrou seu celular Samsung e resolveu pregar uma peça. Enviou "Cervegeiros FC" para um-três-um-cinco. Nunca enviariam uma mensagem com informações ou curiosidades do Cervegeiros FC - como a grafia errada do nome do time, obra de um ala-esquerda e um dos fundadores do time, que não tinha muita intimidade com o português. Alertado para o erro, o ala-esquerda disfarçou: "é para diferenciar dos inúmeros cervejeiros desse país. Cervejeiro com 'g', só a gente."
Mas tão logo enviou a mensagem, Manoel se arrependeu. Que burrice. A propaganda esperava que mandassem "Flamengo", "Corinthians" ou "Cruzeiro", mas o Manoel queria notícias do seu time. Sagaz, sagaz demais. Mas o que seus amigos diriam quando ele contasse que enviou "Cervegeiros FC" para um-três-um-cinco? "Que besteira. E ainda gastou crédito à toa, seu burro." Certamente diriam isso. E o pior é que agora ele receberia um monte de propaganda indesejável via SMS por ter enviado "Cervegeiros FC" para um-três-um-cinco. Que burrice. E, para confirmar suas suspeitas, o celular apitou, alertando uma nova mensagem de texto.
Na verdade a mensagem trazia uma informação em primeira mão: "Manoel não joga mais pelo Cervegeiros FC".
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sábado, 6 de julho de 2013
Teoria da conspiração
Está aí, escancarado, a olhos vistos: há uma campanha em prol do consumo da água. Isso parece bom, mas não é. Só não enxerga quem não quer.
O ataque vem de todos os lados. Começou em uma campanha contra as bebidas alcoólicas: disseram que causa dependência, que faz mal à saúde porque causa cirrose, que compromete o fígado - o fígado! Um órgão que se regenera! Não contentes com isso, começaram uma campanha agressiva, mostrando que consumir bebidas alcoólicas e dirigir é errado.
Isso sem contar no preço abusivo cobrado por uma cerveja - independente do seu invólucro. Latinha, latão, long-neck, 600ml, litrão, qualquer uma delas é cara, abusivamente cara, entorpecidamente cara.
Não contentes em atacar a cerveja nossa de cada hora, atacaram outros líquidos. O leite foi motivo do maior bafafá, porque muitos vendiam leite adulterado. Além do leite, o suco de caixinha também deu o maior bafafá porque estava contaminado com produtos de limpeza. O coitado do suco não ficou só nessa: várias foram as matérias que aconselhavam a abandonar o suco de caixinha porque ele não era saudável como parecia - na verdade tratava-se de um grande veneno travestido de bebida saudável, já que vinha com uma carga de açúcar capaz de derreter o canudinho.
Dessa forma foram também atingidos os refrigerantes. O ataque começou há muito tempo e de forma débil: dizia-se que consumir refrigerante deixava os ossos moles, mas aí se tocaram que o sistema digestivo não passa pelos ossos. Bem depois é que o ataque passou a ser impiedoso. Foi quando disseram que uma mísera latinha portava uma quantidade de açúcar que causaria diabetes no Oceano Atlântico. E não adiantaria consumir a versão "light" ou "zero" do refrigerante, porque esses eram ainda piores: para simular o gosto do refrigerante normal, o light se utiliza de substâncias infinitamente mais nocivas que 10 toneladas de açúcar injetados diretamente na jugular da pobre vítima. Deram a entender que consumir uma latinha de refrigerante light faria qualquer pessoa cantarolar "Adocica" repetidamente para todo o sempre. E nem vou me referir à campanha de péssimo gosto contra o arroto pós-goles de refrigerante!
Outras bebidas também são atingidas pela campanha pró-água, mas de forma velada. O chimarrão, por exemplo: o quilo da erva-mate está pelo preço da morte! É uma forma de desestimular a população (principalmente os gaúchos) a consumirem chimarrão.
Com tantas bebidas sendo atacadas por inescrupulosos, o que nos resta? Beber água. E todo mundo sabe que a água potável está escasseando cada vez mais rápido. Fala-se inclusive em guerra por água em um futuro nem tão distante assim. Ora, essa campanha contra outros líquidos bebíveis é um estímulo indireto para consumirmos mais água, o que irá acelerar esse processo de diminuição da água potável, instalando mais rapidamente o cenário ideal para uma guerra. E a quem interessa uma guerra pela água?
É evidente. Interessa à maior potência bélica do mundo, dona das maiores indústrias armamentistas do planeta: os Estados Unidos! E só podem ser eles os responsáveis por essa campanha contra todas as bebidas boas do mundo.
Podem anotar o que eu disse. No futuro, todos dirão "nossa, o Egídio tava certo e eu não botei fé nele." Enquanto isso, sabe o que eu estarei dizendo?
- Então... quer dizer que toda aquela baboseira que eu pensei em uma tediosa noite de sexta em casa era verdade?
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O ataque vem de todos os lados. Começou em uma campanha contra as bebidas alcoólicas: disseram que causa dependência, que faz mal à saúde porque causa cirrose, que compromete o fígado - o fígado! Um órgão que se regenera! Não contentes com isso, começaram uma campanha agressiva, mostrando que consumir bebidas alcoólicas e dirigir é errado.
Isso sem contar no preço abusivo cobrado por uma cerveja - independente do seu invólucro. Latinha, latão, long-neck, 600ml, litrão, qualquer uma delas é cara, abusivamente cara, entorpecidamente cara.
Não contentes em atacar a cerveja nossa de cada hora, atacaram outros líquidos. O leite foi motivo do maior bafafá, porque muitos vendiam leite adulterado. Além do leite, o suco de caixinha também deu o maior bafafá porque estava contaminado com produtos de limpeza. O coitado do suco não ficou só nessa: várias foram as matérias que aconselhavam a abandonar o suco de caixinha porque ele não era saudável como parecia - na verdade tratava-se de um grande veneno travestido de bebida saudável, já que vinha com uma carga de açúcar capaz de derreter o canudinho.
Dessa forma foram também atingidos os refrigerantes. O ataque começou há muito tempo e de forma débil: dizia-se que consumir refrigerante deixava os ossos moles, mas aí se tocaram que o sistema digestivo não passa pelos ossos. Bem depois é que o ataque passou a ser impiedoso. Foi quando disseram que uma mísera latinha portava uma quantidade de açúcar que causaria diabetes no Oceano Atlântico. E não adiantaria consumir a versão "light" ou "zero" do refrigerante, porque esses eram ainda piores: para simular o gosto do refrigerante normal, o light se utiliza de substâncias infinitamente mais nocivas que 10 toneladas de açúcar injetados diretamente na jugular da pobre vítima. Deram a entender que consumir uma latinha de refrigerante light faria qualquer pessoa cantarolar "Adocica" repetidamente para todo o sempre. E nem vou me referir à campanha de péssimo gosto contra o arroto pós-goles de refrigerante!
Outras bebidas também são atingidas pela campanha pró-água, mas de forma velada. O chimarrão, por exemplo: o quilo da erva-mate está pelo preço da morte! É uma forma de desestimular a população (principalmente os gaúchos) a consumirem chimarrão.
Com tantas bebidas sendo atacadas por inescrupulosos, o que nos resta? Beber água. E todo mundo sabe que a água potável está escasseando cada vez mais rápido. Fala-se inclusive em guerra por água em um futuro nem tão distante assim. Ora, essa campanha contra outros líquidos bebíveis é um estímulo indireto para consumirmos mais água, o que irá acelerar esse processo de diminuição da água potável, instalando mais rapidamente o cenário ideal para uma guerra. E a quem interessa uma guerra pela água?
É evidente. Interessa à maior potência bélica do mundo, dona das maiores indústrias armamentistas do planeta: os Estados Unidos! E só podem ser eles os responsáveis por essa campanha contra todas as bebidas boas do mundo.
Podem anotar o que eu disse. No futuro, todos dirão "nossa, o Egídio tava certo e eu não botei fé nele." Enquanto isso, sabe o que eu estarei dizendo?
- Então... quer dizer que toda aquela baboseira que eu pensei em uma tediosa noite de sexta em casa era verdade?
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sábado, 15 de junho de 2013
Meteorologia & Polícia
A constante e tradicional umidade da cidade, aliada à forte neblina e o frio dos últimos dias, trouxeram trabalho à polícia de Pelotas. O iceberg que há mais de 100 anos causou o naufrágio do Titanic buscou refúgio na Princesa do Sul.
Aproveitando-se do clima pelotense, o iceberg e meliante de fama internacional passeava despercebido e sem rumo pelas ruas da cidade. E continuaria assim se não fosse por Rose Dawson, uma fã do filme "Titanic".
- Eu sabia que já tinha visto aquela cara branca em algum lugar. - declarou a moça, que teve seu nome trocado a pedido dela mesma, visando anonimato.
A partir daí, diversas pessoas reconheceram o vândalo de navios. O 190 foi bastante acionado.
- Recebemos diversas denúncias nas noites de segunda pra terça e de terça pra quarta. - contou o subtenente-coronel investigador e delegado da 51ª Delegacia de Pelotas, Joaquim Bauer.
Após uma intensa perseguição, o iceberg foi preso na manhã de quinta, quando a forte cerração aliviou e permitiu visualizar um revesgueio de um pedaço de um cantinho da cidade. "A noite a perseguição era arriscada, porque ele se camuflava muito bem", declarou Joaquim Bauer. De acordo com policiais que participaram da operação, o iceberg só foi localizado devido às suas marcas de vandalismo. "Ele já estava começando a alagar algumas regiões do Centro da cidade", disse um policial.
Preso, o iceberg que ficou famoso ao afundar o Titanic admitiu que avacalhou a garganta de alguns pelotenses e revelou que veio à cidade para visitar a Fenadoce. Mas avisa:
- Vim pra ficar. Simplesmente amei o clima da cidade, tem tudo a ver comigo. - derreteu-se o iceberg.
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Aproveitando-se do clima pelotense, o iceberg e meliante de fama internacional passeava despercebido e sem rumo pelas ruas da cidade. E continuaria assim se não fosse por Rose Dawson, uma fã do filme "Titanic".
- Eu sabia que já tinha visto aquela cara branca em algum lugar. - declarou a moça, que teve seu nome trocado a pedido dela mesma, visando anonimato.
A partir daí, diversas pessoas reconheceram o vândalo de navios. O 190 foi bastante acionado.
- Recebemos diversas denúncias nas noites de segunda pra terça e de terça pra quarta. - contou o subtenente-coronel investigador e delegado da 51ª Delegacia de Pelotas, Joaquim Bauer.
Após uma intensa perseguição, o iceberg foi preso na manhã de quinta, quando a forte cerração aliviou e permitiu visualizar um revesgueio de um pedaço de um cantinho da cidade. "A noite a perseguição era arriscada, porque ele se camuflava muito bem", declarou Joaquim Bauer. De acordo com policiais que participaram da operação, o iceberg só foi localizado devido às suas marcas de vandalismo. "Ele já estava começando a alagar algumas regiões do Centro da cidade", disse um policial.
Preso, o iceberg que ficou famoso ao afundar o Titanic admitiu que avacalhou a garganta de alguns pelotenses e revelou que veio à cidade para visitar a Fenadoce. Mas avisa:
- Vim pra ficar. Simplesmente amei o clima da cidade, tem tudo a ver comigo. - derreteu-se o iceberg.
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