Essa semana o Facebook causou muito burburinho por comprar o Whatsapp. Não pela compra em si, mas pelo dinheiro que usou nessa compra: 16 bilhões de dólares. E um bilhete escrito "Chupa Eike Batista".
Eu acho o valor ainda mais impressionante porque, há alguns anos atrás, o Google comprou por 1,65 bilhão de dólares o YouTube, que me parece ser algo muito mais complexo que o Whatsapp. Imagino que o Google curtiu e compartilhou isso, com a mensagem "pelo menos nós sabemos pechinchar".
O YouTube custou 1,65 bilhão de dólares; o Whatsapp, 16 bilhões. São quase 15 bilhões de dólares de diferença. Eu imagino que isso se dê porque o YouTube não permite vídeos eróticos, enquanto o Whatsapp tá cheio de pornografia circulando. O acervo putanhesco é incomparável e deve ter jogado o preço do aplicativo lá nas alturas. Fico me perguntando quanto o Google ou o Facebook pagariam pelo XVideos.
16 bilhões de dólares por um serviço de mensagens instantâneas. Tenho certeza que, em alguma sala de bate-papo da UOL, alguém entrou com o nick "DONO_DA_UOL" e falou com todos: "alguém quer tc? to mt triste e carente".
Mas a verdade é que o Facebook pagou pelo Whatsapp um preço compatível com o mercado atual. Qualquer coisa hoje está pela hora da morte. Outro dia um amigo foi comprar Coca e o vendedor cobrou o preço de uma garrafa de 3 litros. E esse meu amigo jura que não tinha nem meia grama no pacote.
Para provar que o mercado mundial está uma loucura, listo aqui o que se pode fazer ou comprar se 16 bilhões de dólares caírem no colo de uma pessoa por algum acaso da vida:
- 3 entradas para o Reino dos Céus com Edir Macedo;
- 4 entradas para o Reino dos Céus com Silas Malafaia;
- 7 entradas para o Reino dos Céus com Marco Feliciano;
- 9 entradas para o Reino dos Céus com R.R. Soares;
- 20 entradas para o Reino dos Céus com Waldemiro Santiago (crise, irmãos);
- 3 meses de aluguel de um quitinete no Centro de Pelotas;
- 4 meses de aluguel de um quitinete em um bairro mais afastado de Pelotas;
- 2 prestações de um imóvel em Pelotas (pintura e reforma não incluídas);
- 1 vaga na garagem de um condomínio de luxo no Rio de Janeiro;
- 40 bilhões de vezes o passe do Alexandre Pato;
- 3 ingressos para assistir a um jogo qualquer da Copa do Mundo no Brasil;
- 2 ingressos para assistir a final da Copa do Mundo no Brasil;
- Meio ingresso para o show do "Guns N' Roses" no Brasil;
- 2 controles do Playstation 4 no Brasil;
- 2 sobremesas no Restaurante CHU;
- 3 cervejas no Papuera;
- 1 cerveja no Nova York Irish Pub.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Studio Pampa
Não é bairrismo: quem nasce gaúcho, é abençoado. Diariamente eu tenho a sensação de que nunca seria feliz se tivesse nascido, sei lá, no Piauí. Estaria sempre com a sensação de que falta alguma coisa. E ser gaúcho é saber exatamente o que falta pra ser feliz: chimarrão.
É lógico que o fato de ter nascido em outro Estado não define a felicidade ou infelicidade de uma pessoa. Quem não nasceu no Rio Grande do Sul tem uma solução: vir morar no Rio Grande do Sul. Além de todas as vantagens inerentes (comer churrasco e tomar chimarrão como quem dá bom dia, além de ter os limites territoriais guarnecidos pelo Gaúcho da Fronteira), quem mora no Rio Grande do Sul tem uma grande vantagem sobre o resto da população mundial: assistir ao Studio Pampa.
Para quem não é agraciado e não mora no Rio Grande do Sul, explico: o Studio Pampa é um programa televisivo da TV Pampa, que passa durante as madrugadas. A TV Pampa é a afiliada gaúcha da Rede TV!. A associação não poderia ser melhor. E coitados de vocês que não conhecem o Studio Pampa. Pra quem nunca viu, o Studio Pampa começa com as apresentadoras (assim, no plural) dançando - simplesmente dançando. Sucessos do passado e do presente: uma música pergunta "Do you believe in life after love?" e a outra responde "Eu quero tchu tchá tchá." Durante, sei lá, 5 minutos ininterruptos. As apresentadoras são apresentadas dançando, mas elas não falam o nome delas. Ao invés disso, um autógrafo da moça que está em close aparece na tela. Mas não é um autógrafo qualquer: é um autógrafo com um coração em qualquer lugar ou estrelinha no lugar do pingo do i.
A primeira dúvida aparece logo aí: quem pediria um autógrafo pra elas? A segunda dúvida vem em seguida: quem assina o próprio nome com um coração ou estrelinha? Digo, além das meninas da quinta série.
Por alguma coincidência da vida, na primeira vez que eu vi Studio Pampa tava rolando o concurso das PampaCats, que são a mesma coisa que aquelas gurias que ficavam dançando nas taças gigantes do Sabadão Sertanejo ou as Panicats - só que do Studio Pampa. Quem vê Studio Pampa sabe o tamanho da surpresa que é saber da existência de um concurso pra PampaCat, porque o normal é pensar que a única maneira de ser cenário vivo dançante do Studio Pampa é ter um revólver apontado pra cabeça e ouvir a frase "ou tu vai dançar ou tu morre."
Mas não, tem o concurso. E entrevistavam as candidatas, perguntavam nome, idade, até que vinha a fatídica pergunta: "qual o seu maior sonho?". E todas - absolutamente todas - respondiam que o maior sonho que tinham é ser PampaCat. Se Freud fosse vivo, teria um derrame cerebral analisando uma pessoa dessas. E o que fazem as PampaCats? Apenas servem de cenário vivo. Passinho pra lá, passinho pra cá durante o programa inteirinho. Não abrem a boca. "As assistentes de palco mais simpáticas, mais carismáticas..." Isso não fui eu quem disse, foi uma das apresentadoras. Pior que nós, homens, nem podemos reclamar, porque adoraríamos ter uma mulher carismática assim. "Mulé, vai lá pegar uma cerveja pra mim", e ela vai e volta dançando, sorrindo e com uma cerveja gelada. Sem falar nada.
Além de não ter a sorte de assistir ao Studio Pampa, vocês aí do resto do país devem estar notando que a Andressa Urach está meio sumida. Para nós, não: ela é a mais nova apresentadora do Studio Pampa. É isso aí: a ex-vice (ex! Vice!) Miss Bumbum está na telinha gaúcha. Ela é pura superação: começou por baixo, no Miss Bumbum, e está terminando ainda mais baixo, no Studio Pampa.
Mas quer saber? Talvez todo esse texto seja puro recalque. A verdade é que eu comeria várias das apresentadoras do Studio Pampa. Sério mesmo. Acho que só não comeria a Andressa Urach. Eu comeria até o Jones Machado antes de comer a Andressa Urach. Porque o Jones Machado deve ser passivo e a Andressa Urach deve ser ativa. Aí eu não curto. Vai que eu coma a Andressa Urach e acabe que nem o Cristiano Ronaldo?
Pensando bem... acabar que nem o Cristiano Ronaldo pode ser uma boa. Me desculpa Jones Machado, vou ter que dar essa chance pra Andressa Urach. Te cuida, CR7.
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É lógico que o fato de ter nascido em outro Estado não define a felicidade ou infelicidade de uma pessoa. Quem não nasceu no Rio Grande do Sul tem uma solução: vir morar no Rio Grande do Sul. Além de todas as vantagens inerentes (comer churrasco e tomar chimarrão como quem dá bom dia, além de ter os limites territoriais guarnecidos pelo Gaúcho da Fronteira), quem mora no Rio Grande do Sul tem uma grande vantagem sobre o resto da população mundial: assistir ao Studio Pampa.
Para quem não é agraciado e não mora no Rio Grande do Sul, explico: o Studio Pampa é um programa televisivo da TV Pampa, que passa durante as madrugadas. A TV Pampa é a afiliada gaúcha da Rede TV!. A associação não poderia ser melhor. E coitados de vocês que não conhecem o Studio Pampa. Pra quem nunca viu, o Studio Pampa começa com as apresentadoras (assim, no plural) dançando - simplesmente dançando. Sucessos do passado e do presente: uma música pergunta "Do you believe in life after love?" e a outra responde "Eu quero tchu tchá tchá." Durante, sei lá, 5 minutos ininterruptos. As apresentadoras são apresentadas dançando, mas elas não falam o nome delas. Ao invés disso, um autógrafo da moça que está em close aparece na tela. Mas não é um autógrafo qualquer: é um autógrafo com um coração em qualquer lugar ou estrelinha no lugar do pingo do i.
A primeira dúvida aparece logo aí: quem pediria um autógrafo pra elas? A segunda dúvida vem em seguida: quem assina o próprio nome com um coração ou estrelinha? Digo, além das meninas da quinta série.
Por alguma coincidência da vida, na primeira vez que eu vi Studio Pampa tava rolando o concurso das PampaCats, que são a mesma coisa que aquelas gurias que ficavam dançando nas taças gigantes do Sabadão Sertanejo ou as Panicats - só que do Studio Pampa. Quem vê Studio Pampa sabe o tamanho da surpresa que é saber da existência de um concurso pra PampaCat, porque o normal é pensar que a única maneira de ser cenário vivo dançante do Studio Pampa é ter um revólver apontado pra cabeça e ouvir a frase "ou tu vai dançar ou tu morre."
Mas não, tem o concurso. E entrevistavam as candidatas, perguntavam nome, idade, até que vinha a fatídica pergunta: "qual o seu maior sonho?". E todas - absolutamente todas - respondiam que o maior sonho que tinham é ser PampaCat. Se Freud fosse vivo, teria um derrame cerebral analisando uma pessoa dessas. E o que fazem as PampaCats? Apenas servem de cenário vivo. Passinho pra lá, passinho pra cá durante o programa inteirinho. Não abrem a boca. "As assistentes de palco mais simpáticas, mais carismáticas..." Isso não fui eu quem disse, foi uma das apresentadoras. Pior que nós, homens, nem podemos reclamar, porque adoraríamos ter uma mulher carismática assim. "Mulé, vai lá pegar uma cerveja pra mim", e ela vai e volta dançando, sorrindo e com uma cerveja gelada. Sem falar nada.
Além de não ter a sorte de assistir ao Studio Pampa, vocês aí do resto do país devem estar notando que a Andressa Urach está meio sumida. Para nós, não: ela é a mais nova apresentadora do Studio Pampa. É isso aí: a ex-vice (ex! Vice!) Miss Bumbum está na telinha gaúcha. Ela é pura superação: começou por baixo, no Miss Bumbum, e está terminando ainda mais baixo, no Studio Pampa.
Mas quer saber? Talvez todo esse texto seja puro recalque. A verdade é que eu comeria várias das apresentadoras do Studio Pampa. Sério mesmo. Acho que só não comeria a Andressa Urach. Eu comeria até o Jones Machado antes de comer a Andressa Urach. Porque o Jones Machado deve ser passivo e a Andressa Urach deve ser ativa. Aí eu não curto. Vai que eu coma a Andressa Urach e acabe que nem o Cristiano Ronaldo?
Pensando bem... acabar que nem o Cristiano Ronaldo pode ser uma boa. Me desculpa Jones Machado, vou ter que dar essa chance pra Andressa Urach. Te cuida, CR7.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Bacon
- Não gosto de bacon.
- Como?
- Não gosto... sei lá. Não gosto.
- Como assim, "não gosta de bacon"?
- Sei lá... só não gosto.
- Some daqui.
- Oi?
- Some da minha casa.
- Calma...
- É sério. Some da minha casa.
- Ei, espera! Não empurra!
- Tô falando sério. Some da minha casa, seu... não-comedor de bacon.
- Espera! Me escuta! Não empurra, deixa eu ficar!
- Nunca. Some da minha casa. Vai... vai... vai não-comer bacon longe daqui.
- Calma! Deixa eu ficar! Se eu ficar, sobra mais bacon pra ti!
- Hm...
- Sabe? Eu não como bacon... fica mais pra ti.
- É. Isso é verdade.
- Pois então.
- Tá, fica. Mas não abre a boca. Não quero mais ouvir tua voz. Quem não abre a boca pra comer bacon não merece abrir a boca pra mais nada.
- Tá bom...
- Cala a boca.
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- Como?
- Não gosto... sei lá. Não gosto.
- Como assim, "não gosta de bacon"?
- Sei lá... só não gosto.
- Some daqui.
- Oi?
- Some da minha casa.
- Calma...
- É sério. Some da minha casa.
- Ei, espera! Não empurra!
- Tô falando sério. Some da minha casa, seu... não-comedor de bacon.
- Espera! Me escuta! Não empurra, deixa eu ficar!
- Nunca. Some da minha casa. Vai... vai... vai não-comer bacon longe daqui.
- Calma! Deixa eu ficar! Se eu ficar, sobra mais bacon pra ti!
- Hm...
- Sabe? Eu não como bacon... fica mais pra ti.
- É. Isso é verdade.
- Pois então.
- Tá, fica. Mas não abre a boca. Não quero mais ouvir tua voz. Quem não abre a boca pra comer bacon não merece abrir a boca pra mais nada.
- Tá bom...
- Cala a boca.
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Ajuda
- Então doutor...
- Sim.
- Eu vim aqui porque... bem, estou com problemas com a minha amada esposa.
- Ótimo, ficarei satisfeito em ajudá-los. Mas...
- Mas o quê, doutor? Tem algum empecilho?
- É necessário que ela venha junto...
- Ah, então...
- ... afinal, eu sou terapeuta de casais.
- Exatamente. Esperava que o senhor pudesse me ajudar com isso também.
- Não entendi.
- Estou encalhadíssimo, doutor. Me arranja um casamento?
.
- Sim.
- Eu vim aqui porque... bem, estou com problemas com a minha amada esposa.
- Ótimo, ficarei satisfeito em ajudá-los. Mas...
- Mas o quê, doutor? Tem algum empecilho?
- É necessário que ela venha junto...
- Ah, então...
- ... afinal, eu sou terapeuta de casais.
- Exatamente. Esperava que o senhor pudesse me ajudar com isso também.
- Não entendi.
- Estou encalhadíssimo, doutor. Me arranja um casamento?
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Time sem vergonha (II)
Sou gaúcho de Pelotas - assim como era meu pai. Pelotenses têm orgulho de dizer que torcem fervorosa e exclusivamente para seus clubes (Brasil, Pelotas e Farroupilha) e não para os times de fora (Grêmio e Inter). Torcer para times de outros estados, então, é a mesma coisa que dizer que é alienígena. Meu pai era uma exceção: torcia para o Fluminense, para o Inter e para o Pelotas. Talvez por sangue, também fui exceção: torcia para Corinthians, Inter e Brasil de Pelotas. A minha história como torcedor é assim: um pouco exótica.
Eu torcia fervorosamente para o Corinthians, era meu time número 1. De verdade: comemorei feito uma besta o título "mundial" de 2000. Pior: quando Javier Castrilli marcou toque de mão do zagueiro da Portuguesa na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, briguei com meio mundo dizendo que ele estava certo. Quando o time sofreu um pequeno acidente de avião na Venezuela em 1996, eu chorei.
Não sei explicar como deixei de torcer pelo Corinthians. Deve ter acontecido gradualmente. Sei que comecei a acompanhar mais os meus times daqui: o Inter e o Brasil de Pelotas. Quando percebi, não comemorei a contratação do Tevez no final de 2004. Porque torcedor tem disso: comemora até contratação. Eu não comemorei a do Tevez, tampouco reclamei. Simplesmente foi insossa pra mim. Foi quando percebi que já não era mais corinthiano.
E, se eu já não me escabelava pelo Corinthians, já tem um ou dois anos que eu já não me escabelo por futebol em geral. Talvez seja o efeito Mazembe, não sei. Sei que essa paixão fervorosa, típica de um torcedor, passou a ser, para mim, algo bobo. Não acho execrável: só não serve para mim. Continuo colorado e xavante, mas deixei de me estressar por causa de futebol e minha calvície agradece. E o que restou de gosto por futebol em mim está indo pras cucuias com essa patacoada entre entidades jurídicas desportivas e clubes de maior ou menor expressão, essa suruba que a Portuguesa foi e, como o seu conterrâneo Manuel, passaram-lhe a mão na bunda e ele não comeu ninguém. Essa confusão sepulta o pouco que restava de credibilidade do futebol brasileiro e que a Copa do Mundo não recuperará: apenas dará aos estrangeiros a ilusão de que nosso futebol merece respeito.
Acho que é melhor eu começar a simpatizar pelo futebol do exterior. Está bem distante e eu não recebo muitas notícias diárias deles. Já ando inclusive buscando alguns clubes para gostar mais. Acho que Borussia Dortmund e Arsenal me parecem uma escolha bacana.
Já meu pai, bem, não conheço histórias dele como torcedor. Sei que ele tentou fazer com que eu torcesse pelo Pelotas (tenho fotos com uma camiseta do time - camiseta que, por sinal, deve estar guardada até hoje) e que estava em Porto Alegre no dia do bicampeonato brasileiro do Inter. Quanto ao Fluminense, eu não sei. Não sei se ele foi ao Maracanã alguma vez para ver o time em ação. Quando eu fiz isso, em 12 de outubro de 2013, o Fluminense empatou com o Grêmio em 1 a 1 e eu não lembrei do meu pai por um só instante - nem quando comemorei o gol do Rafael Sóbis aos 45 minutos do segundo tempo. Estava mais preocupado em curtir o encantamento de estar no Maracanã e xingar o Kléber Gladiador. Mas sei que meu pai era torcedor do Fluminense, talvez tanto quanto eu era torcedor do Corinthians.
Meu pai morreu há 20 anos e, hoje, eu tenho mais vergonha de dizer que ele era torcedor do Fluminense do que dizer que eu torcia feito uma mula pelo Corinthians e que hoje talvez eu torça para Borussia Dortmund e Arsenal.
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Eu torcia fervorosamente para o Corinthians, era meu time número 1. De verdade: comemorei feito uma besta o título "mundial" de 2000. Pior: quando Javier Castrilli marcou toque de mão do zagueiro da Portuguesa na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, briguei com meio mundo dizendo que ele estava certo. Quando o time sofreu um pequeno acidente de avião na Venezuela em 1996, eu chorei.
Não sei explicar como deixei de torcer pelo Corinthians. Deve ter acontecido gradualmente. Sei que comecei a acompanhar mais os meus times daqui: o Inter e o Brasil de Pelotas. Quando percebi, não comemorei a contratação do Tevez no final de 2004. Porque torcedor tem disso: comemora até contratação. Eu não comemorei a do Tevez, tampouco reclamei. Simplesmente foi insossa pra mim. Foi quando percebi que já não era mais corinthiano.
E, se eu já não me escabelava pelo Corinthians, já tem um ou dois anos que eu já não me escabelo por futebol em geral. Talvez seja o efeito Mazembe, não sei. Sei que essa paixão fervorosa, típica de um torcedor, passou a ser, para mim, algo bobo. Não acho execrável: só não serve para mim. Continuo colorado e xavante, mas deixei de me estressar por causa de futebol e minha calvície agradece. E o que restou de gosto por futebol em mim está indo pras cucuias com essa patacoada entre entidades jurídicas desportivas e clubes de maior ou menor expressão, essa suruba que a Portuguesa foi e, como o seu conterrâneo Manuel, passaram-lhe a mão na bunda e ele não comeu ninguém. Essa confusão sepulta o pouco que restava de credibilidade do futebol brasileiro e que a Copa do Mundo não recuperará: apenas dará aos estrangeiros a ilusão de que nosso futebol merece respeito.
Acho que é melhor eu começar a simpatizar pelo futebol do exterior. Está bem distante e eu não recebo muitas notícias diárias deles. Já ando inclusive buscando alguns clubes para gostar mais. Acho que Borussia Dortmund e Arsenal me parecem uma escolha bacana.
Já meu pai, bem, não conheço histórias dele como torcedor. Sei que ele tentou fazer com que eu torcesse pelo Pelotas (tenho fotos com uma camiseta do time - camiseta que, por sinal, deve estar guardada até hoje) e que estava em Porto Alegre no dia do bicampeonato brasileiro do Inter. Quanto ao Fluminense, eu não sei. Não sei se ele foi ao Maracanã alguma vez para ver o time em ação. Quando eu fiz isso, em 12 de outubro de 2013, o Fluminense empatou com o Grêmio em 1 a 1 e eu não lembrei do meu pai por um só instante - nem quando comemorei o gol do Rafael Sóbis aos 45 minutos do segundo tempo. Estava mais preocupado em curtir o encantamento de estar no Maracanã e xingar o Kléber Gladiador. Mas sei que meu pai era torcedor do Fluminense, talvez tanto quanto eu era torcedor do Corinthians.
Meu pai morreu há 20 anos e, hoje, eu tenho mais vergonha de dizer que ele era torcedor do Fluminense do que dizer que eu torcia feito uma mula pelo Corinthians e que hoje talvez eu torça para Borussia Dortmund e Arsenal.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Time sem vergonha (I)
Eu tenho um talento inútil: sei muitos hinos de times de futebol. Inteiros ou excertos, não importa, desde "eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás, eu sou Goiás e vou gritar", ou "Atlético! Atlético! Conhecemos teu valor! E a camisa rubro-negra só se veste por amor!", ou "e a torcida reunida até parece a do Fla-Flu, Bangu, Bangu, Bangu", até hinos inteiros como os do Inter e o do Brasil de Pelotas: eu sei hinos demais. Um dos meus preferidos é o do Fluminense. Acho que só não é o hino mais bonito do Brasil por um único defeito: o próprio Fluminense. Dentre todos os hinos, o do Fluminense é aquele que menos combina com o próprio clube. E não me refiro à parte que diz clube que orgulha o Brasil, retumbante de glórias e vitórias mil, afinal o Fluminense, dos grandes clubes brasileiros, é o que tem menos títulos internacionais - ganhar ou perder faz parte do esporte.
Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão... é um ótimo início, simples e direto. Mas logo a seguir ele começa a destoar: é impossível cantar fascina pela sua disciplina sem imaginar o João Kléber saltando do teto aos berros de "pára pára pára pára!"
Rebaixado pela primeira vez em 1996, o Fluminense se aproveitou de um esquema de corrupção no futebol (que veio à tona somente em 1997) para se livrar da Série B de 1997 na marra. Sem merecimento, jogou novamente a Série A em 1997 - onde, sem futebol decente, foi novamente rebaixado. Dessa vez sem esquema de arbitragem pra ajudar, o clube jogou a Série B em 1998 e, como jogou novamente sem futebol decente, foi rebaixado à Série C, que jogou em 1999 com um futebol minimamente decente, sagrando-se campeão e credenciando-se para disputar a Série B. Mas disputou o equivalente à Série A na estapafúrdia Copa João Havelange de 2000, pulando etapas como o Mario achando as flautas mágicas no Super Mario Bros 3. E agora, em 2013, apenas 1 ano depois de ter sido campeão nacional (com muita ajuda da arbitragem) e novamente sem futebol decente, o Fluminense foi novamente rebaixado. Mas pelo visto vai escapar, porque sem mais essa nem aquela, descobriram por algum acaso misterioso da vida que um outro clube usou um jogador que não podia jogar um jogo.
Ah, Fluminense, tenha dó. Quem foge das consequências da derrota é incapaz de fascinar pela disciplina.
Lá pelas tantas o hino do Fluminense diz vence o Fluminense, com o verde da esperança... esperança? Pode ser verde de dólar, de real, de euro. Verde da logomarca da Unimed. Pode ser até verde de maconha. Mas "esperança"? Tamanha covardia em assumir a própria fraqueza não está nem perto de ser sinônimo de "esperança". Pois quem espera sempre alcança. Puxa cara, devia ter lembrado disso quando ganhou a Série C. Foi mais apressado que o Ronaldo pedindo a Daniela Cicarelli em casamento.
Que tal um hino novo, Fluminense? Um que combine com o clube? "Sou tricolor de coração, sou do clube que adora tapetão" me parece um ótimo início.
.
Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão... é um ótimo início, simples e direto. Mas logo a seguir ele começa a destoar: é impossível cantar fascina pela sua disciplina sem imaginar o João Kléber saltando do teto aos berros de "pára pára pára pára!"
Rebaixado pela primeira vez em 1996, o Fluminense se aproveitou de um esquema de corrupção no futebol (que veio à tona somente em 1997) para se livrar da Série B de 1997 na marra. Sem merecimento, jogou novamente a Série A em 1997 - onde, sem futebol decente, foi novamente rebaixado. Dessa vez sem esquema de arbitragem pra ajudar, o clube jogou a Série B em 1998 e, como jogou novamente sem futebol decente, foi rebaixado à Série C, que jogou em 1999 com um futebol minimamente decente, sagrando-se campeão e credenciando-se para disputar a Série B. Mas disputou o equivalente à Série A na estapafúrdia Copa João Havelange de 2000, pulando etapas como o Mario achando as flautas mágicas no Super Mario Bros 3. E agora, em 2013, apenas 1 ano depois de ter sido campeão nacional (com muita ajuda da arbitragem) e novamente sem futebol decente, o Fluminense foi novamente rebaixado. Mas pelo visto vai escapar, porque sem mais essa nem aquela, descobriram por algum acaso misterioso da vida que um outro clube usou um jogador que não podia jogar um jogo.
Ah, Fluminense, tenha dó. Quem foge das consequências da derrota é incapaz de fascinar pela disciplina.
Lá pelas tantas o hino do Fluminense diz vence o Fluminense, com o verde da esperança... esperança? Pode ser verde de dólar, de real, de euro. Verde da logomarca da Unimed. Pode ser até verde de maconha. Mas "esperança"? Tamanha covardia em assumir a própria fraqueza não está nem perto de ser sinônimo de "esperança". Pois quem espera sempre alcança. Puxa cara, devia ter lembrado disso quando ganhou a Série C. Foi mais apressado que o Ronaldo pedindo a Daniela Cicarelli em casamento.
Que tal um hino novo, Fluminense? Um que combine com o clube? "Sou tricolor de coração, sou do clube que adora tapetão" me parece um ótimo início.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Orgulho do papai
Passavam das sete da noite quando Gilmar botou a chave na fechadura para abrir a porta de casa. Chegava no horário habitual, após sair da empresa de informática onde trabalhava fazendo manutenções dos mais diversos tipos - de hardware a software. Era um nerd convicto. O horário que chegou em casa não era surpresa, tanto que ouviu uma voz infantil dizer, sem muita empolgação: "manhê, o pai chegou."
Era o filho mais velho, de 5 anos, que estava sentado no chão da sala com o irmão mais novo, de 4. Gilmar deu em cada um deles um beijo de "olá, cheguei bem, é bom ver vocês", o que interrompeu a atividade das crianças naquele momento: escolher uma brincadeira.
- Do que tu quer brincar? - perguntou o mais velho.
- De computador!
- Boa! Faz de conta que eu sou um computador da Apple que tá com problema no processador e tu é um computador da IBM que precisa fazer backup!
- Tá!
Gilmar sorriu e continuava sem entender como as pessoas achavam ruim que as crianças gastassem tanto tempo brincando de computador.
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Era o filho mais velho, de 5 anos, que estava sentado no chão da sala com o irmão mais novo, de 4. Gilmar deu em cada um deles um beijo de "olá, cheguei bem, é bom ver vocês", o que interrompeu a atividade das crianças naquele momento: escolher uma brincadeira.
- Do que tu quer brincar? - perguntou o mais velho.
- De computador!
- Boa! Faz de conta que eu sou um computador da Apple que tá com problema no processador e tu é um computador da IBM que precisa fazer backup!
- Tá!
Gilmar sorriu e continuava sem entender como as pessoas achavam ruim que as crianças gastassem tanto tempo brincando de computador.
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