- Não gosto de bacon.
- Como?
- Não gosto... sei lá. Não gosto.
- Como assim, "não gosta de bacon"?
- Sei lá... só não gosto.
- Some daqui.
- Oi?
- Some da minha casa.
- Calma...
- É sério. Some da minha casa.
- Ei, espera! Não empurra!
- Tô falando sério. Some da minha casa, seu... não-comedor de bacon.
- Espera! Me escuta! Não empurra, deixa eu ficar!
- Nunca. Some da minha casa. Vai... vai... vai não-comer bacon longe daqui.
- Calma! Deixa eu ficar! Se eu ficar, sobra mais bacon pra ti!
- Hm...
- Sabe? Eu não como bacon... fica mais pra ti.
- É. Isso é verdade.
- Pois então.
- Tá, fica. Mas não abre a boca. Não quero mais ouvir tua voz. Quem não abre a boca pra comer bacon não merece abrir a boca pra mais nada.
- Tá bom...
- Cala a boca.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Ajuda
- Então doutor...
- Sim.
- Eu vim aqui porque... bem, estou com problemas com a minha amada esposa.
- Ótimo, ficarei satisfeito em ajudá-los. Mas...
- Mas o quê, doutor? Tem algum empecilho?
- É necessário que ela venha junto...
- Ah, então...
- ... afinal, eu sou terapeuta de casais.
- Exatamente. Esperava que o senhor pudesse me ajudar com isso também.
- Não entendi.
- Estou encalhadíssimo, doutor. Me arranja um casamento?
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- Sim.
- Eu vim aqui porque... bem, estou com problemas com a minha amada esposa.
- Ótimo, ficarei satisfeito em ajudá-los. Mas...
- Mas o quê, doutor? Tem algum empecilho?
- É necessário que ela venha junto...
- Ah, então...
- ... afinal, eu sou terapeuta de casais.
- Exatamente. Esperava que o senhor pudesse me ajudar com isso também.
- Não entendi.
- Estou encalhadíssimo, doutor. Me arranja um casamento?
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Time sem vergonha (II)
Sou gaúcho de Pelotas - assim como era meu pai. Pelotenses têm orgulho de dizer que torcem fervorosa e exclusivamente para seus clubes (Brasil, Pelotas e Farroupilha) e não para os times de fora (Grêmio e Inter). Torcer para times de outros estados, então, é a mesma coisa que dizer que é alienígena. Meu pai era uma exceção: torcia para o Fluminense, para o Inter e para o Pelotas. Talvez por sangue, também fui exceção: torcia para Corinthians, Inter e Brasil de Pelotas. A minha história como torcedor é assim: um pouco exótica.
Eu torcia fervorosamente para o Corinthians, era meu time número 1. De verdade: comemorei feito uma besta o título "mundial" de 2000. Pior: quando Javier Castrilli marcou toque de mão do zagueiro da Portuguesa na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, briguei com meio mundo dizendo que ele estava certo. Quando o time sofreu um pequeno acidente de avião na Venezuela em 1996, eu chorei.
Não sei explicar como deixei de torcer pelo Corinthians. Deve ter acontecido gradualmente. Sei que comecei a acompanhar mais os meus times daqui: o Inter e o Brasil de Pelotas. Quando percebi, não comemorei a contratação do Tevez no final de 2004. Porque torcedor tem disso: comemora até contratação. Eu não comemorei a do Tevez, tampouco reclamei. Simplesmente foi insossa pra mim. Foi quando percebi que já não era mais corinthiano.
E, se eu já não me escabelava pelo Corinthians, já tem um ou dois anos que eu já não me escabelo por futebol em geral. Talvez seja o efeito Mazembe, não sei. Sei que essa paixão fervorosa, típica de um torcedor, passou a ser, para mim, algo bobo. Não acho execrável: só não serve para mim. Continuo colorado e xavante, mas deixei de me estressar por causa de futebol e minha calvície agradece. E o que restou de gosto por futebol em mim está indo pras cucuias com essa patacoada entre entidades jurídicas desportivas e clubes de maior ou menor expressão, essa suruba que a Portuguesa foi e, como o seu conterrâneo Manuel, passaram-lhe a mão na bunda e ele não comeu ninguém. Essa confusão sepulta o pouco que restava de credibilidade do futebol brasileiro e que a Copa do Mundo não recuperará: apenas dará aos estrangeiros a ilusão de que nosso futebol merece respeito.
Acho que é melhor eu começar a simpatizar pelo futebol do exterior. Está bem distante e eu não recebo muitas notícias diárias deles. Já ando inclusive buscando alguns clubes para gostar mais. Acho que Borussia Dortmund e Arsenal me parecem uma escolha bacana.
Já meu pai, bem, não conheço histórias dele como torcedor. Sei que ele tentou fazer com que eu torcesse pelo Pelotas (tenho fotos com uma camiseta do time - camiseta que, por sinal, deve estar guardada até hoje) e que estava em Porto Alegre no dia do bicampeonato brasileiro do Inter. Quanto ao Fluminense, eu não sei. Não sei se ele foi ao Maracanã alguma vez para ver o time em ação. Quando eu fiz isso, em 12 de outubro de 2013, o Fluminense empatou com o Grêmio em 1 a 1 e eu não lembrei do meu pai por um só instante - nem quando comemorei o gol do Rafael Sóbis aos 45 minutos do segundo tempo. Estava mais preocupado em curtir o encantamento de estar no Maracanã e xingar o Kléber Gladiador. Mas sei que meu pai era torcedor do Fluminense, talvez tanto quanto eu era torcedor do Corinthians.
Meu pai morreu há 20 anos e, hoje, eu tenho mais vergonha de dizer que ele era torcedor do Fluminense do que dizer que eu torcia feito uma mula pelo Corinthians e que hoje talvez eu torça para Borussia Dortmund e Arsenal.
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Eu torcia fervorosamente para o Corinthians, era meu time número 1. De verdade: comemorei feito uma besta o título "mundial" de 2000. Pior: quando Javier Castrilli marcou toque de mão do zagueiro da Portuguesa na semifinal do Campeonato Paulista de 1998, briguei com meio mundo dizendo que ele estava certo. Quando o time sofreu um pequeno acidente de avião na Venezuela em 1996, eu chorei.
Não sei explicar como deixei de torcer pelo Corinthians. Deve ter acontecido gradualmente. Sei que comecei a acompanhar mais os meus times daqui: o Inter e o Brasil de Pelotas. Quando percebi, não comemorei a contratação do Tevez no final de 2004. Porque torcedor tem disso: comemora até contratação. Eu não comemorei a do Tevez, tampouco reclamei. Simplesmente foi insossa pra mim. Foi quando percebi que já não era mais corinthiano.
E, se eu já não me escabelava pelo Corinthians, já tem um ou dois anos que eu já não me escabelo por futebol em geral. Talvez seja o efeito Mazembe, não sei. Sei que essa paixão fervorosa, típica de um torcedor, passou a ser, para mim, algo bobo. Não acho execrável: só não serve para mim. Continuo colorado e xavante, mas deixei de me estressar por causa de futebol e minha calvície agradece. E o que restou de gosto por futebol em mim está indo pras cucuias com essa patacoada entre entidades jurídicas desportivas e clubes de maior ou menor expressão, essa suruba que a Portuguesa foi e, como o seu conterrâneo Manuel, passaram-lhe a mão na bunda e ele não comeu ninguém. Essa confusão sepulta o pouco que restava de credibilidade do futebol brasileiro e que a Copa do Mundo não recuperará: apenas dará aos estrangeiros a ilusão de que nosso futebol merece respeito.
Acho que é melhor eu começar a simpatizar pelo futebol do exterior. Está bem distante e eu não recebo muitas notícias diárias deles. Já ando inclusive buscando alguns clubes para gostar mais. Acho que Borussia Dortmund e Arsenal me parecem uma escolha bacana.
Já meu pai, bem, não conheço histórias dele como torcedor. Sei que ele tentou fazer com que eu torcesse pelo Pelotas (tenho fotos com uma camiseta do time - camiseta que, por sinal, deve estar guardada até hoje) e que estava em Porto Alegre no dia do bicampeonato brasileiro do Inter. Quanto ao Fluminense, eu não sei. Não sei se ele foi ao Maracanã alguma vez para ver o time em ação. Quando eu fiz isso, em 12 de outubro de 2013, o Fluminense empatou com o Grêmio em 1 a 1 e eu não lembrei do meu pai por um só instante - nem quando comemorei o gol do Rafael Sóbis aos 45 minutos do segundo tempo. Estava mais preocupado em curtir o encantamento de estar no Maracanã e xingar o Kléber Gladiador. Mas sei que meu pai era torcedor do Fluminense, talvez tanto quanto eu era torcedor do Corinthians.
Meu pai morreu há 20 anos e, hoje, eu tenho mais vergonha de dizer que ele era torcedor do Fluminense do que dizer que eu torcia feito uma mula pelo Corinthians e que hoje talvez eu torça para Borussia Dortmund e Arsenal.
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Time sem vergonha (I)
Eu tenho um talento inútil: sei muitos hinos de times de futebol. Inteiros ou excertos, não importa, desde "eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás, eu sou Goiás e vou gritar", ou "Atlético! Atlético! Conhecemos teu valor! E a camisa rubro-negra só se veste por amor!", ou "e a torcida reunida até parece a do Fla-Flu, Bangu, Bangu, Bangu", até hinos inteiros como os do Inter e o do Brasil de Pelotas: eu sei hinos demais. Um dos meus preferidos é o do Fluminense. Acho que só não é o hino mais bonito do Brasil por um único defeito: o próprio Fluminense. Dentre todos os hinos, o do Fluminense é aquele que menos combina com o próprio clube. E não me refiro à parte que diz clube que orgulha o Brasil, retumbante de glórias e vitórias mil, afinal o Fluminense, dos grandes clubes brasileiros, é o que tem menos títulos internacionais - ganhar ou perder faz parte do esporte.
Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão... é um ótimo início, simples e direto. Mas logo a seguir ele começa a destoar: é impossível cantar fascina pela sua disciplina sem imaginar o João Kléber saltando do teto aos berros de "pára pára pára pára!"
Rebaixado pela primeira vez em 1996, o Fluminense se aproveitou de um esquema de corrupção no futebol (que veio à tona somente em 1997) para se livrar da Série B de 1997 na marra. Sem merecimento, jogou novamente a Série A em 1997 - onde, sem futebol decente, foi novamente rebaixado. Dessa vez sem esquema de arbitragem pra ajudar, o clube jogou a Série B em 1998 e, como jogou novamente sem futebol decente, foi rebaixado à Série C, que jogou em 1999 com um futebol minimamente decente, sagrando-se campeão e credenciando-se para disputar a Série B. Mas disputou o equivalente à Série A na estapafúrdia Copa João Havelange de 2000, pulando etapas como o Mario achando as flautas mágicas no Super Mario Bros 3. E agora, em 2013, apenas 1 ano depois de ter sido campeão nacional (com muita ajuda da arbitragem) e novamente sem futebol decente, o Fluminense foi novamente rebaixado. Mas pelo visto vai escapar, porque sem mais essa nem aquela, descobriram por algum acaso misterioso da vida que um outro clube usou um jogador que não podia jogar um jogo.
Ah, Fluminense, tenha dó. Quem foge das consequências da derrota é incapaz de fascinar pela disciplina.
Lá pelas tantas o hino do Fluminense diz vence o Fluminense, com o verde da esperança... esperança? Pode ser verde de dólar, de real, de euro. Verde da logomarca da Unimed. Pode ser até verde de maconha. Mas "esperança"? Tamanha covardia em assumir a própria fraqueza não está nem perto de ser sinônimo de "esperança". Pois quem espera sempre alcança. Puxa cara, devia ter lembrado disso quando ganhou a Série C. Foi mais apressado que o Ronaldo pedindo a Daniela Cicarelli em casamento.
Que tal um hino novo, Fluminense? Um que combine com o clube? "Sou tricolor de coração, sou do clube que adora tapetão" me parece um ótimo início.
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Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão... é um ótimo início, simples e direto. Mas logo a seguir ele começa a destoar: é impossível cantar fascina pela sua disciplina sem imaginar o João Kléber saltando do teto aos berros de "pára pára pára pára!"
Rebaixado pela primeira vez em 1996, o Fluminense se aproveitou de um esquema de corrupção no futebol (que veio à tona somente em 1997) para se livrar da Série B de 1997 na marra. Sem merecimento, jogou novamente a Série A em 1997 - onde, sem futebol decente, foi novamente rebaixado. Dessa vez sem esquema de arbitragem pra ajudar, o clube jogou a Série B em 1998 e, como jogou novamente sem futebol decente, foi rebaixado à Série C, que jogou em 1999 com um futebol minimamente decente, sagrando-se campeão e credenciando-se para disputar a Série B. Mas disputou o equivalente à Série A na estapafúrdia Copa João Havelange de 2000, pulando etapas como o Mario achando as flautas mágicas no Super Mario Bros 3. E agora, em 2013, apenas 1 ano depois de ter sido campeão nacional (com muita ajuda da arbitragem) e novamente sem futebol decente, o Fluminense foi novamente rebaixado. Mas pelo visto vai escapar, porque sem mais essa nem aquela, descobriram por algum acaso misterioso da vida que um outro clube usou um jogador que não podia jogar um jogo.
Ah, Fluminense, tenha dó. Quem foge das consequências da derrota é incapaz de fascinar pela disciplina.
Lá pelas tantas o hino do Fluminense diz vence o Fluminense, com o verde da esperança... esperança? Pode ser verde de dólar, de real, de euro. Verde da logomarca da Unimed. Pode ser até verde de maconha. Mas "esperança"? Tamanha covardia em assumir a própria fraqueza não está nem perto de ser sinônimo de "esperança". Pois quem espera sempre alcança. Puxa cara, devia ter lembrado disso quando ganhou a Série C. Foi mais apressado que o Ronaldo pedindo a Daniela Cicarelli em casamento.
Que tal um hino novo, Fluminense? Um que combine com o clube? "Sou tricolor de coração, sou do clube que adora tapetão" me parece um ótimo início.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Orgulho do papai
Passavam das sete da noite quando Gilmar botou a chave na fechadura para abrir a porta de casa. Chegava no horário habitual, após sair da empresa de informática onde trabalhava fazendo manutenções dos mais diversos tipos - de hardware a software. Era um nerd convicto. O horário que chegou em casa não era surpresa, tanto que ouviu uma voz infantil dizer, sem muita empolgação: "manhê, o pai chegou."
Era o filho mais velho, de 5 anos, que estava sentado no chão da sala com o irmão mais novo, de 4. Gilmar deu em cada um deles um beijo de "olá, cheguei bem, é bom ver vocês", o que interrompeu a atividade das crianças naquele momento: escolher uma brincadeira.
- Do que tu quer brincar? - perguntou o mais velho.
- De computador!
- Boa! Faz de conta que eu sou um computador da Apple que tá com problema no processador e tu é um computador da IBM que precisa fazer backup!
- Tá!
Gilmar sorriu e continuava sem entender como as pessoas achavam ruim que as crianças gastassem tanto tempo brincando de computador.
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Era o filho mais velho, de 5 anos, que estava sentado no chão da sala com o irmão mais novo, de 4. Gilmar deu em cada um deles um beijo de "olá, cheguei bem, é bom ver vocês", o que interrompeu a atividade das crianças naquele momento: escolher uma brincadeira.
- Do que tu quer brincar? - perguntou o mais velho.
- De computador!
- Boa! Faz de conta que eu sou um computador da Apple que tá com problema no processador e tu é um computador da IBM que precisa fazer backup!
- Tá!
Gilmar sorriu e continuava sem entender como as pessoas achavam ruim que as crianças gastassem tanto tempo brincando de computador.
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Motorista legal
Trafegava pela pista da direita, a uma velocidade de 32km/h. Não que percebesse isso com tanta precisão - olhou de revesgueio para o velocímetro e viu o ponteiro um pouco além da marca de 30km/h. E olhou de revesgueio porque sabia que tinha que manter a atenção no trânsito. Vai que surge uma criança correndo e atravessa a rua? Vai que um ciclista se desequilibra?
Vinha tranquilo, deixando a pista da esquerda livre para alguém mais apressado, que quisesse arriscar uma multa por excesso de velocidade. Não era o caso dele. Era um motorista legal - tão legal que dirigia com as duas mãos no volante e era um dos poucos na cidade que parava na faixa de segurança, para deixar os pedestres atravessarem, como estava fazendo agora. O bom de ser motorista legal é incentivar os outros a serem também: ao parar na faixa de segurança, viu que o carro que vinha na pista da esquerda também parou. Estava satisfeito: dera o exemplo. Agora todos os pedestres podiam atravessar com tranquilidade. A mãe de mãos dadas com seu filho, o idoso que caminhava com alguma dificuldade, a senhora carregada com sacolas de compras e, na frente de todos, sua ex-namorada.
Poxa, também não precisava exagerar. Era isso que recebia como recompensa por ser um motorista legal? Permitir a travessia da ex-namorada? Não precisava de tanto. A moça lhe havia feito perceber como o corpo humano é estranho: entregara-se a ela de coração, ela lhe deu um pé na bunda e ele ficou com uma tremenda dor de cotovelo. Porém o tempo é o tempo, ajeita o corpo humano com paciência e ele se recuperou. Mas não é porque estava recuperado que ele podia ou precisava parar na faixa de segurança para ela, justo ela, atravessar. Se tivesse visto que era ela, não tinha parado. Não que fosse atropelar, só não precisava ter feito essa gentileza logo pra ela.
O pior é que ela viu que ele tinha parado. E ele viu que ela viu. Bosta. Agora ela ia pensar que ele ainda estava mal por ela, que ele ainda gostava dela e isso massagearia o ego dela e massacraria o dele, faria ela se sentir poderosa. Bosta. Ainda atravessou sorrindo. Bosta, bosta, bosta!
Isso não podia ficar assim. Tinha que fazer alguma coisa para desfazer o mal entendido. Não podia mandar uma mensagem pela internet pra ela, porque significaria estar se rebaixando, correndo atrás dela. Seria um atestado de que ainda sente algo por ela, mas não sente! Bem, um pouco de rancor, talvez. Descer do carro para explicar tudo a ela estava fora de cogitação, porque ela encararia isso como uma atitude desesperada. Claro, também ia deixar o carro abandonado no meio da rua e poderia morrer na contramão atrapalhando o tráfego - o que seria muito pior, porque ela gosta de Chico Buarque. O que fazer? O que fazer?! Eis que, de repente, teve uma ideia.
No outro dia, circulava com um grande adesivo colado no vidro traseiro dizendo "Cuidado! Eu freio para animais!"
Continuava sendo um motorista legal e não apelou para adesivos da família feliz.
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Vinha tranquilo, deixando a pista da esquerda livre para alguém mais apressado, que quisesse arriscar uma multa por excesso de velocidade. Não era o caso dele. Era um motorista legal - tão legal que dirigia com as duas mãos no volante e era um dos poucos na cidade que parava na faixa de segurança, para deixar os pedestres atravessarem, como estava fazendo agora. O bom de ser motorista legal é incentivar os outros a serem também: ao parar na faixa de segurança, viu que o carro que vinha na pista da esquerda também parou. Estava satisfeito: dera o exemplo. Agora todos os pedestres podiam atravessar com tranquilidade. A mãe de mãos dadas com seu filho, o idoso que caminhava com alguma dificuldade, a senhora carregada com sacolas de compras e, na frente de todos, sua ex-namorada.
Poxa, também não precisava exagerar. Era isso que recebia como recompensa por ser um motorista legal? Permitir a travessia da ex-namorada? Não precisava de tanto. A moça lhe havia feito perceber como o corpo humano é estranho: entregara-se a ela de coração, ela lhe deu um pé na bunda e ele ficou com uma tremenda dor de cotovelo. Porém o tempo é o tempo, ajeita o corpo humano com paciência e ele se recuperou. Mas não é porque estava recuperado que ele podia ou precisava parar na faixa de segurança para ela, justo ela, atravessar. Se tivesse visto que era ela, não tinha parado. Não que fosse atropelar, só não precisava ter feito essa gentileza logo pra ela.
O pior é que ela viu que ele tinha parado. E ele viu que ela viu. Bosta. Agora ela ia pensar que ele ainda estava mal por ela, que ele ainda gostava dela e isso massagearia o ego dela e massacraria o dele, faria ela se sentir poderosa. Bosta. Ainda atravessou sorrindo. Bosta, bosta, bosta!
Isso não podia ficar assim. Tinha que fazer alguma coisa para desfazer o mal entendido. Não podia mandar uma mensagem pela internet pra ela, porque significaria estar se rebaixando, correndo atrás dela. Seria um atestado de que ainda sente algo por ela, mas não sente! Bem, um pouco de rancor, talvez. Descer do carro para explicar tudo a ela estava fora de cogitação, porque ela encararia isso como uma atitude desesperada. Claro, também ia deixar o carro abandonado no meio da rua e poderia morrer na contramão atrapalhando o tráfego - o que seria muito pior, porque ela gosta de Chico Buarque. O que fazer? O que fazer?! Eis que, de repente, teve uma ideia.
No outro dia, circulava com um grande adesivo colado no vidro traseiro dizendo "Cuidado! Eu freio para animais!"
Continuava sendo um motorista legal e não apelou para adesivos da família feliz.
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sábado, 2 de novembro de 2013
O humor, uma arte como outra qualquer
Não é nenhuma novidade: Danilo Gentili foi processado pela maior doadora de leite humano do Brasil por causa de piadas que fez sobre a moça em seu programa. Não é novidade como notícia (a informação foi veiculada pela imprensa há 3 ou 4 dias), tampouco como um fato inédito. Não é de hoje que humoristas são processados no Brasil por fazerem piadas - o próprio Danilo Gentili já havia sido processado, assim como Rafinha Bastos já foi processado diversas vezes e, há poucas semanas, Léo Lins foi proibido de entrar no Japão por piadas feitas com a temática do tsunami de 2011. E, é óbvio, o processo mais recente de Danilo Gentili não será o último. Veremos ainda muitos casos de humoristas serem processados por suas piadas. Afinal, ainda há quem não compreenda que o humorista é um artista.
Quando digo "artista", refiro-me à concepção mais usual da palavra: artista é aquele que produz arte. Mozart era artista porque produzia música; Picasso era artista porque produzia pinturas; Oscar Wilde era artista porque produzia literatura. Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Léo Lins são artistas porque produzem humor. Não estou aqui fazendo uma comparação qualitativa da arte de cada um dos citados ("nossa, comparar a genialidade do Fulano com o Sicrano, que é um zé-ninguém..."): Picasso, Oscar Wilde, Mozart, Danilo Gentili, Serginho da Vassoura e o pintor que vende suas obras no calçadão de Copacabana são igualmente artistas. Trata-se, portanto, de identificá-los em um mesmo nicho. Todos são artistas, indiferente da apreciação dedicada às suas obras. Eu não gosto de Oasis, mas não posso negar que os irmãos Gallagher são artistas - eles produzem música.
Não gostar de Oasis causa em mim um certo desinteresse. Por causa desse desinteresse não compro discos da banda, não baixo músicas, não vou a shows e, quando toca uma música deles em uma festa, não danço; aproveito para conversar com alguém ou ir pegar uma cerveja. É o que eu faço quando não gosto de uma arte: não consumo, porque ela não desperta meu interesse.
No recente processo em que Danilo Gentili é réu, a autora afirmou se sentir humilhada por causa da piada: "As pessoas nas ruas têm me chamado de vaca, vaca do Gentili. Parabenizar pelo meu ato, ninguém faz, mas xingar é o que mais acontece nas ruas depois da piada na TV." A humilhação que a autora sentiu afetou suas doações, diminuindo substancialmente o leite materno que ela produzia. Não resta dúvida: é triste que tenha chegado a esse ponto. Isto não se discute. O leite que a mulher doava era importante para vários bebês. Entretanto, responsabilizar o humorista por isso e afirmar que ele foi agressivo é - para dizer pouco - errado.
Em 1774, Johann Wolfgang von Goethe lançou "Os sofrimentos do jovem Werther". Sucedeu que o livro foi apontado como causador de uma onda de suicídios pela Europa. Já em 1986, Ozzy Osbourne foi acusado de causar o suicídio de um jovem por causa da música "Suicide Solution". Em 1990, a banda Judas Priest passou por um caso semelhante: sua música "Better by you, better than me" foi apontada como responsável pelo suicídio de um jovem. Em 2001, a banda Slayer foi absolvida da acusação de incitação à violência (três jovens afirmaram terem se inspirado em músicas da banda para assassinar uma jovem de 15 anos). Dois anos antes, Marilyn Manson foi apontado como inspirador do chamado Massacre de Columbine, quando dois jovens provocaram um tiroteio em uma escola, matando 15 pessoas (incluindo aí os atiradores, que cometeram suicídio) e ferindo outras 24.
Logo, responsabilizar a arte de um artista (e por consequência o próprio artista) por um ato violento não é novidade. O problema é que isto é errado. Responsabilizar a arte - ou o artista que a produziu - por um crime ou atitude antissocial é transferir responsabilidades. Em momento algum Goethe disse que a melhor saída para jovens desiludidos é o suicídio. As músicas dos artistas citados, por mais agressivas que possam parecer, não defendem a ideia de matar como solução para um problema.
Quando há a falta de discernimento de uma pessoa que vê na arte uma motivação para um ato violento, a falha está em não ter dado o dito discernimento para a pessoa até aquele momento. A letra, por mais agressiva que seja, continua sendo apenas uma letra; a sonoridade, por mais pesada e lúgubre que seja, é apenas uma sonoridade. Quando alguém não debate sobre uma manifestação artística de aparência agressiva, há sim o risco deste alguém cometer um delito. E esta é a situação: não há problema em trancar-se em um quarto para ouvir discos do Slayer e do Marilyn Manson. O problema está na falta de um debate esclarecedor sobre aquela arte.
O mesmo ocorre com videogames ou desenhos animados (o Cartoon Network censurou e retirou do ar o desenho "Tom & Jerry"). Não é problema uma criança jogar GTA e depois ver 3 episódios de Tom & Jerry. O problema é a falta de alguém que explique que é errado roubar, atropelar e matar como no jogo, e que fazer o gato engolir um rojão aceso também é errado.
Há quem acredite que a arte deve ser uma arma de contestação, de análise social, de combate às injustiças. Eu concordo. Porém, nem toda arte tem esta característica e nem todo artista manifesta-se com estas intenções. Em todo o universo da pintura, de vez em quando surge um Pablo Picasso, que em meio a sua extensa produção, pinta "Guernica". Em todo o universo literário, surge de vez em quando um Érico Veríssimo, que em meio a toda sua obra escreve "Incidente em Antares"; ou surge um Ernest Hemingway, que em meio à toda sua obra escreve "Por quem os sinos dobram". Na música, de vez em quando surge um Scorpions, que em meio a sua discografia compõe "Under the same sun". Com o humor não é diferente. Em meio a todo o universo humorístico, surge de vez em quando um Chico Anysio que, em meio à sua extensa obra de cerca de 200 personagens, cria o Professor Raymundo ou Justo Veríssimo. Assim como cria um ícone do machismo cruel, como Nazareno.
Como já disse, a piada do Danilo Gentili causou, sim, um problema: a doadora de leite foi alvo de humilhações que causaram a diminuição de suas doações. Ora, o culpado não é o autor da piada e sim quem acha que a piada é uma manifestação da verdade, uma opinião balizada que corrobora atitudes agressivas e, por isso, busca rebaixar a doadora.
Uma piada é, tão somente, uma manifestação artística e assim deve ser tratada. O grande problema é que o entendimento do humor como arte (às vezes por ignorância e às vezes por pura birra) está ainda muito distante.
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Quando digo "artista", refiro-me à concepção mais usual da palavra: artista é aquele que produz arte. Mozart era artista porque produzia música; Picasso era artista porque produzia pinturas; Oscar Wilde era artista porque produzia literatura. Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Léo Lins são artistas porque produzem humor. Não estou aqui fazendo uma comparação qualitativa da arte de cada um dos citados ("nossa, comparar a genialidade do Fulano com o Sicrano, que é um zé-ninguém..."): Picasso, Oscar Wilde, Mozart, Danilo Gentili, Serginho da Vassoura e o pintor que vende suas obras no calçadão de Copacabana são igualmente artistas. Trata-se, portanto, de identificá-los em um mesmo nicho. Todos são artistas, indiferente da apreciação dedicada às suas obras. Eu não gosto de Oasis, mas não posso negar que os irmãos Gallagher são artistas - eles produzem música.
Não gostar de Oasis causa em mim um certo desinteresse. Por causa desse desinteresse não compro discos da banda, não baixo músicas, não vou a shows e, quando toca uma música deles em uma festa, não danço; aproveito para conversar com alguém ou ir pegar uma cerveja. É o que eu faço quando não gosto de uma arte: não consumo, porque ela não desperta meu interesse.
No recente processo em que Danilo Gentili é réu, a autora afirmou se sentir humilhada por causa da piada: "As pessoas nas ruas têm me chamado de vaca, vaca do Gentili. Parabenizar pelo meu ato, ninguém faz, mas xingar é o que mais acontece nas ruas depois da piada na TV." A humilhação que a autora sentiu afetou suas doações, diminuindo substancialmente o leite materno que ela produzia. Não resta dúvida: é triste que tenha chegado a esse ponto. Isto não se discute. O leite que a mulher doava era importante para vários bebês. Entretanto, responsabilizar o humorista por isso e afirmar que ele foi agressivo é - para dizer pouco - errado.
Em 1774, Johann Wolfgang von Goethe lançou "Os sofrimentos do jovem Werther". Sucedeu que o livro foi apontado como causador de uma onda de suicídios pela Europa. Já em 1986, Ozzy Osbourne foi acusado de causar o suicídio de um jovem por causa da música "Suicide Solution". Em 1990, a banda Judas Priest passou por um caso semelhante: sua música "Better by you, better than me" foi apontada como responsável pelo suicídio de um jovem. Em 2001, a banda Slayer foi absolvida da acusação de incitação à violência (três jovens afirmaram terem se inspirado em músicas da banda para assassinar uma jovem de 15 anos). Dois anos antes, Marilyn Manson foi apontado como inspirador do chamado Massacre de Columbine, quando dois jovens provocaram um tiroteio em uma escola, matando 15 pessoas (incluindo aí os atiradores, que cometeram suicídio) e ferindo outras 24.
Logo, responsabilizar a arte de um artista (e por consequência o próprio artista) por um ato violento não é novidade. O problema é que isto é errado. Responsabilizar a arte - ou o artista que a produziu - por um crime ou atitude antissocial é transferir responsabilidades. Em momento algum Goethe disse que a melhor saída para jovens desiludidos é o suicídio. As músicas dos artistas citados, por mais agressivas que possam parecer, não defendem a ideia de matar como solução para um problema.
Quando há a falta de discernimento de uma pessoa que vê na arte uma motivação para um ato violento, a falha está em não ter dado o dito discernimento para a pessoa até aquele momento. A letra, por mais agressiva que seja, continua sendo apenas uma letra; a sonoridade, por mais pesada e lúgubre que seja, é apenas uma sonoridade. Quando alguém não debate sobre uma manifestação artística de aparência agressiva, há sim o risco deste alguém cometer um delito. E esta é a situação: não há problema em trancar-se em um quarto para ouvir discos do Slayer e do Marilyn Manson. O problema está na falta de um debate esclarecedor sobre aquela arte.
O mesmo ocorre com videogames ou desenhos animados (o Cartoon Network censurou e retirou do ar o desenho "Tom & Jerry"). Não é problema uma criança jogar GTA e depois ver 3 episódios de Tom & Jerry. O problema é a falta de alguém que explique que é errado roubar, atropelar e matar como no jogo, e que fazer o gato engolir um rojão aceso também é errado.
Há quem acredite que a arte deve ser uma arma de contestação, de análise social, de combate às injustiças. Eu concordo. Porém, nem toda arte tem esta característica e nem todo artista manifesta-se com estas intenções. Em todo o universo da pintura, de vez em quando surge um Pablo Picasso, que em meio a sua extensa produção, pinta "Guernica". Em todo o universo literário, surge de vez em quando um Érico Veríssimo, que em meio a toda sua obra escreve "Incidente em Antares"; ou surge um Ernest Hemingway, que em meio à toda sua obra escreve "Por quem os sinos dobram". Na música, de vez em quando surge um Scorpions, que em meio a sua discografia compõe "Under the same sun". Com o humor não é diferente. Em meio a todo o universo humorístico, surge de vez em quando um Chico Anysio que, em meio à sua extensa obra de cerca de 200 personagens, cria o Professor Raymundo ou Justo Veríssimo. Assim como cria um ícone do machismo cruel, como Nazareno.
Como já disse, a piada do Danilo Gentili causou, sim, um problema: a doadora de leite foi alvo de humilhações que causaram a diminuição de suas doações. Ora, o culpado não é o autor da piada e sim quem acha que a piada é uma manifestação da verdade, uma opinião balizada que corrobora atitudes agressivas e, por isso, busca rebaixar a doadora.
Uma piada é, tão somente, uma manifestação artística e assim deve ser tratada. O grande problema é que o entendimento do humor como arte (às vezes por ignorância e às vezes por pura birra) está ainda muito distante.
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