Carlos era tão pessimista, mas tão pessimista, que era muito incompreendido quando resolvia ser um pouco otimista.
- Não te entendo, Carlos.
- É simples, cara. Eu vou passar nesse concurso público. Vou ficar entre os primeiros e vou ser chamado logo. Estou otimista, confiante.
- Tá, tudo bem, mas por que se inscrever para concorrer à vaga de deficiente físico?
- É que até lá eu já sofri um acidente e já fiquei paraplégico.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Sobre insetos e aranhas
Tem gente que diz que devemos respeitar a natureza. Ok, até concordo. Mas não tem como respeitar insetos.
Imagina aí um almoço em família. A mesa repleta dos mais variados quitutes, e eis que surge uma mosca. Ela voa daqui até ali, dali até acolá, espalhando seus germes fecais inocentemente, enquanto todos os membros da família abanam a mesa, tentando afastar o inseto que não foi convidado. Não tem como respeitar uma mosca. É chato. Incomoda demais. Mas, nesse caso, prefiro pensar pelo lado positivo: ainda bem que é uma mosca. Podia ser um rinoceronte com asas.
Eu, como todo mundo, respeito abelhas - mas na verdade não deveria. Somente 1 tipo de pessoa gosta deliberadamente de abelhas: o apicultor. Ao resto de nós, convém respeitar. Alguém já viu um protesto de apicultores? É claro que não. O governo jamais se arriscaria a deixar apicultores descontentes, porque eles certamente tacariam as abelhas pra cima de todo mundo. Abelha é um bicho muito provalecido: nós não podemos incomodá-las, mas elas se acham no direito de zumbir perto da nossa cara, com aquele terrível, ameaçador e descontrolado ferrão. E se a incomodarmos por isso (ou por bem menos que isso), a abelha chama a colmeia inteira para nos fuzilar - basta ver uma das cenas mais tristes da história do cinema, em "Meu primeiro amor".
Também não respeito baratas. Não dá pra respeitar um bicho que, além de voar com as próprias forças, tem a pachorra de sobreviver a altas doses de radiação ou mesmo a uma guerra nuclear. A maior prova disso dá-se quando tentamos matar baratas utilizando inseticidas. Podem observar: baratas morrem por comer Detefon até explodir, ou então morrem devido ao peso do que lhe borrifam, mas jamais morrem envenenadas. Envenenados saímos nós.
O pior é que, de uns tempos pra cá, as baratas parecem ter tomado consciência dessa condição de "invencíveis" - sabe-se lá como. Elas já não têm o menor respeito pelos humanos. Quando detectamos a presença de uma barata, nosso cérebro, de forma instantânea e automática, programa nosso corpo para trucidá-las. Acontece que, antes que esta decisão esteja sacramentada (o que dura meio micronésimo de segundo, quando muito), a barata já está nos encarando, ciente de sua "invencibilidade". Está pronta para nos encarar, pensando "se eu aguento radiação, esse humano babaca é fichinha". Encarna Davi e enxerga Golias em nossa pele. E eu nem sabia que as baratas haviam sido catequizadas.
Mas não é só isso. Perguntem à minha mãe, que não me deixará mentir: há coisa de 1 semana, avistamos 2 baratas copulando no muro de casa, enquanto as tarefas domésticas eram executadas. Assim, sem a menor cerimônia. Elas não estavam nem aí pra gente. E o pior: copulavam, como já disse, no muro! Desafiavam a gravidade e tinham o prazer de se reproduzir desavergonhadamente num ato só. Logicamente, foram mortas com o peso do SBP.
Elas sobrevivem a altíssimos níveis de radiação, a uma possível guerra nuclear, e só por causa dessa bobagenzinha à toa se acham invencíveis, a ponto não apenas de nos chamar para uma briga, mas de copular sem respeitar nem a lei da gravidade, quanto mais seres humanos. É por isso que eu as mato: para ensiná-las boas maneiras. Para mostrar quem manda por aqui.
Também não respeito aranhas. Aos que usarão minha naturalidade pelotense para disparar piadinhas contra mim, previno-me: estou me referindo aos artrópodes de oito patas. E eis aí um bom motivo para eu não respeitá-las. Aranhas controlam graciosamente nada menos do que OITO pernas. Eu, por vezes, me esborracho no chão utilizando míseras duas pernas, que são absolutamente incontroláveis e até mesmo inúteis quando estou bêbado.
Mas não é só isso. Outro dia, uma aranha quase me causou um grave e talvez irreversível dano psicológico. Era um belo início de tarde e, sabe Deus como, uma bruxinha (chamada em outras querências de mariposa, um dos poucos insetos que, embora feia de doer, eu respeito) adentrou meu quarto, mais perdida que surdo em bingo. "Coitada", pensei com meus botões, "se perdeu! Vou abrir a janela, pra ver se ela toma o rumo da rua, da liberdade!". E é provável que a bruxinha tenha lido meu pensamento, porque tão logo abri a janela, ela voou serelepe em direção à rua, agradecendo-me.
O que nem Mister M explica é como uma aranha do tamanho de uma bola de pingue-pongue é capaz de viver no vão de uma janela sem que ninguém saiba. Distraída devido à faceirice de ter recebido a liberdade de mim, a bruxinha voou próxima demais do vão da janela. E no meio do caminho havia uma aranha. Havia uma aranha no meio do caminho. Estupefato, assisti o cruel aracnídeo saltar sobre o inseto voador, aplicando-lhe um gracioso e imbatível mata-leão com suas oito patas. Foi assim que eu soube que uma aranha morava comigo.
E eu fiquei com um peso na consciência. Eu era responsável direto pela morte de uma serelepe e esvoaçante bruxinha. Tão abalado fiquei que, enquanto a aranha injetava seu veneno na bruxinha, fui desabafar com minha mãe.
- Mãe! Uma inocente bruxinha está morta! Ela jamais poderá balançar asas livremente pelos ares! E é tudo culpa minha! - Chamei-a para mostrar a aranha assassina, que ainda estava agarrada à vítima, que por sua vez foi entregue de bandeja por mim. Infortúnio dos infortúnios!
Daí minha mãe mostrou o respeito que devemos ter por aranhas e insetos: pegou um papel higiênico, esmagou a aranha com bruxinha e tudo e atirou pela janela. É isso aí, mãe!
Imagina aí um almoço em família. A mesa repleta dos mais variados quitutes, e eis que surge uma mosca. Ela voa daqui até ali, dali até acolá, espalhando seus germes fecais inocentemente, enquanto todos os membros da família abanam a mesa, tentando afastar o inseto que não foi convidado. Não tem como respeitar uma mosca. É chato. Incomoda demais. Mas, nesse caso, prefiro pensar pelo lado positivo: ainda bem que é uma mosca. Podia ser um rinoceronte com asas.
Eu, como todo mundo, respeito abelhas - mas na verdade não deveria. Somente 1 tipo de pessoa gosta deliberadamente de abelhas: o apicultor. Ao resto de nós, convém respeitar. Alguém já viu um protesto de apicultores? É claro que não. O governo jamais se arriscaria a deixar apicultores descontentes, porque eles certamente tacariam as abelhas pra cima de todo mundo. Abelha é um bicho muito provalecido: nós não podemos incomodá-las, mas elas se acham no direito de zumbir perto da nossa cara, com aquele terrível, ameaçador e descontrolado ferrão. E se a incomodarmos por isso (ou por bem menos que isso), a abelha chama a colmeia inteira para nos fuzilar - basta ver uma das cenas mais tristes da história do cinema, em "Meu primeiro amor".
Também não respeito baratas. Não dá pra respeitar um bicho que, além de voar com as próprias forças, tem a pachorra de sobreviver a altas doses de radiação ou mesmo a uma guerra nuclear. A maior prova disso dá-se quando tentamos matar baratas utilizando inseticidas. Podem observar: baratas morrem por comer Detefon até explodir, ou então morrem devido ao peso do que lhe borrifam, mas jamais morrem envenenadas. Envenenados saímos nós.
O pior é que, de uns tempos pra cá, as baratas parecem ter tomado consciência dessa condição de "invencíveis" - sabe-se lá como. Elas já não têm o menor respeito pelos humanos. Quando detectamos a presença de uma barata, nosso cérebro, de forma instantânea e automática, programa nosso corpo para trucidá-las. Acontece que, antes que esta decisão esteja sacramentada (o que dura meio micronésimo de segundo, quando muito), a barata já está nos encarando, ciente de sua "invencibilidade". Está pronta para nos encarar, pensando "se eu aguento radiação, esse humano babaca é fichinha". Encarna Davi e enxerga Golias em nossa pele. E eu nem sabia que as baratas haviam sido catequizadas.
Mas não é só isso. Perguntem à minha mãe, que não me deixará mentir: há coisa de 1 semana, avistamos 2 baratas copulando no muro de casa, enquanto as tarefas domésticas eram executadas. Assim, sem a menor cerimônia. Elas não estavam nem aí pra gente. E o pior: copulavam, como já disse, no muro! Desafiavam a gravidade e tinham o prazer de se reproduzir desavergonhadamente num ato só. Logicamente, foram mortas com o peso do SBP.
Elas sobrevivem a altíssimos níveis de radiação, a uma possível guerra nuclear, e só por causa dessa bobagenzinha à toa se acham invencíveis, a ponto não apenas de nos chamar para uma briga, mas de copular sem respeitar nem a lei da gravidade, quanto mais seres humanos. É por isso que eu as mato: para ensiná-las boas maneiras. Para mostrar quem manda por aqui.
Também não respeito aranhas. Aos que usarão minha naturalidade pelotense para disparar piadinhas contra mim, previno-me: estou me referindo aos artrópodes de oito patas. E eis aí um bom motivo para eu não respeitá-las. Aranhas controlam graciosamente nada menos do que OITO pernas. Eu, por vezes, me esborracho no chão utilizando míseras duas pernas, que são absolutamente incontroláveis e até mesmo inúteis quando estou bêbado.
Mas não é só isso. Outro dia, uma aranha quase me causou um grave e talvez irreversível dano psicológico. Era um belo início de tarde e, sabe Deus como, uma bruxinha (chamada em outras querências de mariposa, um dos poucos insetos que, embora feia de doer, eu respeito) adentrou meu quarto, mais perdida que surdo em bingo. "Coitada", pensei com meus botões, "se perdeu! Vou abrir a janela, pra ver se ela toma o rumo da rua, da liberdade!". E é provável que a bruxinha tenha lido meu pensamento, porque tão logo abri a janela, ela voou serelepe em direção à rua, agradecendo-me.
O que nem Mister M explica é como uma aranha do tamanho de uma bola de pingue-pongue é capaz de viver no vão de uma janela sem que ninguém saiba. Distraída devido à faceirice de ter recebido a liberdade de mim, a bruxinha voou próxima demais do vão da janela. E no meio do caminho havia uma aranha. Havia uma aranha no meio do caminho. Estupefato, assisti o cruel aracnídeo saltar sobre o inseto voador, aplicando-lhe um gracioso e imbatível mata-leão com suas oito patas. Foi assim que eu soube que uma aranha morava comigo.
E eu fiquei com um peso na consciência. Eu era responsável direto pela morte de uma serelepe e esvoaçante bruxinha. Tão abalado fiquei que, enquanto a aranha injetava seu veneno na bruxinha, fui desabafar com minha mãe.
- Mãe! Uma inocente bruxinha está morta! Ela jamais poderá balançar asas livremente pelos ares! E é tudo culpa minha! - Chamei-a para mostrar a aranha assassina, que ainda estava agarrada à vítima, que por sua vez foi entregue de bandeja por mim. Infortúnio dos infortúnios!
Daí minha mãe mostrou o respeito que devemos ter por aranhas e insetos: pegou um papel higiênico, esmagou a aranha com bruxinha e tudo e atirou pela janela. É isso aí, mãe!
quinta-feira, 3 de março de 2011
Uma traumatizante experiência culinária
Eu invejo homens que sabem cozinhar. E invejo com força. Invejo homens cozinheiros porque eles sabem diferenciar certos alimentos, e aqui me refiro especificamente a manjericão, salsinha e couve. Se eu liderasse as panelas durante o preparo de um almoço e pedisse qualquer um desses três itens, podiam me trazer até um maço de capim colhido à beira da árvore do vizinho que eu não notaria a menor diferença. E ainda arrotaria caviar.
Não sou nenhum Indiana Jones quando me dirijo à cozinha, como fazem parecer o Anonymous Gourmet ou o Olivier Anquier, estes desgraçados - perdão, é a inveja. Mas eu não morro de fome se precisar me aproximar do fogão para fazer algo mais que esquentar a água do chimarrão. É mais provável que eu morra envenenado - sem perceber que fui envenenado, e quiçá sem perceber que morri. Não vou à cozinha apenas apra correr o risco de quebrar pratos - eu até me viro muito bem na cozinha. Hoje mesmo, almocei um suculento Miojo sabor carne. Além disso, descongelo uma lasanha congelada como poucos, sei abrir latas de ervilha, milho e atum; não obstante, sei fazer um arroz bastante apropriado para esta época do ano, porque é um arroz carnavalesco. Ele sai em bloco - mas não sem antes ter transformado o fogão numa bagunça feliz.
Também sei fazer ovo mexido (conhecido em outras querências como "omelete", mas não vou me referir a este famoso prato desta maneira - afinal, já estou em Pelotas e o que é um peido pra quem tá todo cagado?). Todos os pratos que me referi como capaz de cozinhar obedecem à velha máxima da cozinha dos solteirões: "o melhor tempero que existe é a fome". E com relação ao meu ovo mexido, ele não é um ovo mexido qualquer. Ele nem sequer é um: são três ovos que vão dançar dentro da frigideira, deslizando no óleo de cozinha, no ritmo do garfo que empunho, enquanto despejo, aos poucos, algumas pitadas de sal que torço que não seja flagrada para alguma câmera escondida, o que causaria preocupação extra para meu médico.
Assim que o conteúdo da frigideira adquire uma forma mais sólida, desligo o fogo. Então despejo um pouco de orégano e, munido de um tubo de catchup e uma lata de azeite, vou degustar minha obra culinária, o que faço na própria frigideira, porque sou um rapaz muito consciente e não gosto de sujar louça à toa. Ter que lavar tudo depois é um saco.
Como vocês podem perceber - e eu já deixei claro -, não sou nenhum Indiana Jones da culinária. Nunca tive grandes apertos ou experiências horríveis à beira do fogão - isto é, até alguns dias atrás, quando, faminto, recorri à minha infalível receita de ovo mexido. Foi traumatizante demais. A frigideira já estava no fogão, quando eu quebrava o primeiro dos três ovos e o colocava na frigideira.
Mas havia algo errado.
Assim que o ovo se esparramou pela geladeira, percebi que sua clara tinha um forte tom marrom, ao invés do límpido transparente que lhe é comum. Instantaneamente, um cheiro ruim foi liberado. Com o intuito de conferir se o cheiro tinha origem no conteúdo que a frigideira acabara de receber, este inexperiente e incauto projeto de auxiliar de cozinheiro que vos escreve resolveu aproximar o nariz da frigideira e dar uma forte inspirada.
E foi como se Mike Tyson tivesse me dado o mais forte murro da sua carreira bem no meu nariz. Eu estava descobrindo, naquele exato instante e na prática, o que era um ovo podre.
Corri da cozinha o mais rápido que pude em busca de 2 itens valiosos: ar puro e um telefone celular, de onde liguei para minha mãe, afim de descobrir se ela tinha o telefone de alguma coletora de lixo atômico ou mesmo da polícia, para quem eu denunciaria a agressão olfativa que eu havia acabado de sofrer. Cinco minutos se passaram até que meu cérebro tivesse oxigênio suficiente para entender o conselho da minha mãe: jogar o ovo podre pelo esgoto do pátio.
Ao retornar para a cozinha - tomando o cuidado de respirar o mínimo possível -, vi que não estava sozinho. Uma gigantesca mosca azul admirava, serenamente e de camarote, o forte marrom da clara do ovo que jazia na frigideira. A mosca era tão gigante que podia tranquilamente ser o bicho de estimação do já citado Mike Tyson, o que me fez crer que, de fato, ele estivera ali e, sim, havia desferido-me um potente murro olfativo no meio do meu nariz.
Timidamente, abanei a mão perto da mosca e, em voz alta, ordenei que ela saísse dali. Acreditem: ela preguiçosamente levantou vôo e se dirigiu diretamente para a abertura da janela, saindo para nunca mais voltar. Sequer ficou para ver o despejo do ovo podre pelo esgoto - o que aumenta a possibilidade de ser um inseto domesticado. Mike Tyson, o senhor não perdeu uma mosca?
Foi uma experiência que me fez pensar demais: homens conseguem diferenciar manjericão, salsinha, couve e capim; ora, os homens já foram à Lua!
Porque raios não é possível diferenciar um ovo bom de um ovo podre sem sofrer uma agressão?
Não sou nenhum Indiana Jones quando me dirijo à cozinha, como fazem parecer o Anonymous Gourmet ou o Olivier Anquier, estes desgraçados - perdão, é a inveja. Mas eu não morro de fome se precisar me aproximar do fogão para fazer algo mais que esquentar a água do chimarrão. É mais provável que eu morra envenenado - sem perceber que fui envenenado, e quiçá sem perceber que morri. Não vou à cozinha apenas apra correr o risco de quebrar pratos - eu até me viro muito bem na cozinha. Hoje mesmo, almocei um suculento Miojo sabor carne. Além disso, descongelo uma lasanha congelada como poucos, sei abrir latas de ervilha, milho e atum; não obstante, sei fazer um arroz bastante apropriado para esta época do ano, porque é um arroz carnavalesco. Ele sai em bloco - mas não sem antes ter transformado o fogão numa bagunça feliz.
Também sei fazer ovo mexido (conhecido em outras querências como "omelete", mas não vou me referir a este famoso prato desta maneira - afinal, já estou em Pelotas e o que é um peido pra quem tá todo cagado?). Todos os pratos que me referi como capaz de cozinhar obedecem à velha máxima da cozinha dos solteirões: "o melhor tempero que existe é a fome". E com relação ao meu ovo mexido, ele não é um ovo mexido qualquer. Ele nem sequer é um: são três ovos que vão dançar dentro da frigideira, deslizando no óleo de cozinha, no ritmo do garfo que empunho, enquanto despejo, aos poucos, algumas pitadas de sal que torço que não seja flagrada para alguma câmera escondida, o que causaria preocupação extra para meu médico.
Assim que o conteúdo da frigideira adquire uma forma mais sólida, desligo o fogo. Então despejo um pouco de orégano e, munido de um tubo de catchup e uma lata de azeite, vou degustar minha obra culinária, o que faço na própria frigideira, porque sou um rapaz muito consciente e não gosto de sujar louça à toa. Ter que lavar tudo depois é um saco.
Como vocês podem perceber - e eu já deixei claro -, não sou nenhum Indiana Jones da culinária. Nunca tive grandes apertos ou experiências horríveis à beira do fogão - isto é, até alguns dias atrás, quando, faminto, recorri à minha infalível receita de ovo mexido. Foi traumatizante demais. A frigideira já estava no fogão, quando eu quebrava o primeiro dos três ovos e o colocava na frigideira.
Mas havia algo errado.
Assim que o ovo se esparramou pela geladeira, percebi que sua clara tinha um forte tom marrom, ao invés do límpido transparente que lhe é comum. Instantaneamente, um cheiro ruim foi liberado. Com o intuito de conferir se o cheiro tinha origem no conteúdo que a frigideira acabara de receber, este inexperiente e incauto projeto de auxiliar de cozinheiro que vos escreve resolveu aproximar o nariz da frigideira e dar uma forte inspirada.
E foi como se Mike Tyson tivesse me dado o mais forte murro da sua carreira bem no meu nariz. Eu estava descobrindo, naquele exato instante e na prática, o que era um ovo podre.
Corri da cozinha o mais rápido que pude em busca de 2 itens valiosos: ar puro e um telefone celular, de onde liguei para minha mãe, afim de descobrir se ela tinha o telefone de alguma coletora de lixo atômico ou mesmo da polícia, para quem eu denunciaria a agressão olfativa que eu havia acabado de sofrer. Cinco minutos se passaram até que meu cérebro tivesse oxigênio suficiente para entender o conselho da minha mãe: jogar o ovo podre pelo esgoto do pátio.
Ao retornar para a cozinha - tomando o cuidado de respirar o mínimo possível -, vi que não estava sozinho. Uma gigantesca mosca azul admirava, serenamente e de camarote, o forte marrom da clara do ovo que jazia na frigideira. A mosca era tão gigante que podia tranquilamente ser o bicho de estimação do já citado Mike Tyson, o que me fez crer que, de fato, ele estivera ali e, sim, havia desferido-me um potente murro olfativo no meio do meu nariz.
Timidamente, abanei a mão perto da mosca e, em voz alta, ordenei que ela saísse dali. Acreditem: ela preguiçosamente levantou vôo e se dirigiu diretamente para a abertura da janela, saindo para nunca mais voltar. Sequer ficou para ver o despejo do ovo podre pelo esgoto - o que aumenta a possibilidade de ser um inseto domesticado. Mike Tyson, o senhor não perdeu uma mosca?
Foi uma experiência que me fez pensar demais: homens conseguem diferenciar manjericão, salsinha, couve e capim; ora, os homens já foram à Lua!
Porque raios não é possível diferenciar um ovo bom de um ovo podre sem sofrer uma agressão?
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
E SE... Silvio Santos fosse presidente?
Uma dívida de mais de 2 bilhões de reais. Um esclerosamento visível da Lua a olho nu. Uma peruca descoberta em rede nacional por uma criança de 5 anos, que posteriormente foi bastante avacalhada pelo dono da peruca. É inegável: Silvio Santos já viveu dias melhores.
E põe melhores nisso. Silvio era largamente respeitado, tanto que os mais saudosistas acham, até hoje, que ele devia ser presidente do Brasil. Talvez a nova geração nem desconfie disso, mas Silvio Santos na presidência nacional foi algo bastante plausível. Como se sabe, o projeto presidencial não foi adiante, mas é fato: o Homem do Baú ensaiou uma candidatura em 1989.
Se houve Lula, o sindicalista do ABC paulista, porque não haveria Silvio Santos, o camelô carioca com muito orgulho? Pois bem: e se Silvio Santos fosse presidente do país?
Não é difícil de imaginar. Toda eleição, depois de encerrada, é seguida de uma expectativa nacional em torno dos nomes dos ministros que formarão o escrete governista do eleito. Com Silvio Santos não seria diferente. A imprensa toda estaria atrás dele, que seria evasivo:
- Quem é que eu vou chamaaaaaaar, quem é que eu vou chamaaaaaaaar?
Se a cena ocorresse nas eleições de 1989, Zélia Cardoso de Mello estaria pulando enlouquecida na plateia do auditório, entoando cânticos de "chama eu, Silvio! Chama eu!" Assim como o PMDB. Por sua indicação, Ratinho acumularia o Ministério da Defesa e o Ministério da Previdência Social e Maísa assumiria a Casa Civil - ninguém protestaria, pois todos acham fofo uma criança demonstrar tamanha maturidade. O mistério ficaria para o Ministério da Cultura: Liminha ou Carlos Alberto de Nóbrega?
Brasileiros pagariam seus impostos com o Carnê do Baú, enquanto nossa dívida externa seria paga em barras de ouro, que valem mais que dinheiro. No setor da saúde, o Brasil teria um revolucionário sistema de distribuição de remédios: bastaria adquirirmos produtos Jequiti, com alguma revendedora. E se Lula fez o maior alarde com o Fome Zero, Silvio Santos faria um alarde ainda maior com o seu grande projeto social, o Teleton, que ficaria a encargo de Hebe Camargo. Depois de alguns anos, Hebe balançaria no cargo, graças ao Escândalo dos Selinhos.
O Brasil não estaria livre da corrupção, mas ela certamente seria menor. Isso graças ao inovador sistema de inteligência e espionagem, desenvolvido pelo CC Ivo Holanda. A cada prisão efetuada, a cada quadrilha desbaratada, a cada crime solucionado, uma manifestação pública do nosso amado Chefe de Estado: "bem bolada, bem bolada!". Tudo graças às operações Câmera Escondida.
O grande problema de Silvio Santos seria a maciça oposição: Collor, Lula, Globo, Band, Record, Manchete e Rede TV!. A Globo, aliás, defenderia arduamente a privatização do SBT, canal estatal onde o presidente do país é o manda-chuva. A Record rezaria para dar certo, enquanto a Manchete e a Rede TV!, bem, talvez chamassem o Jaspion. A Band se mudaria para a Argentina.
Isso porque ser dono de uma rede de televisão renderia comparações com Silvio Berlusconi e Hugo Chávez. As aparições públicas seriam largamente exploradas pelo SBT, porque o presidente não largaria o hábito de jogar aviõezinhos para o auditório, perguntando "quem quer dinheirooooooooo?" de forma entusiástica. Tal atitude renderia comentários negativos da oposição. Collor diria que "é um populismo barato e desenfreado", enquanto Lula afirmaria que "é uma atitude hipócrita da burguesia" ("hipócrita é o AeroLula!", responderia o Homem do Baú). O fato é que toda a população pensaria: "pago imposto demais, mas pelo menos o dinheiro volta pra gente".
Notícias sobre o presidente seriam narradas no canal oficial do governo pelo Lombardi. A morte dele, aliás, causaria a mesma tristeza e luto que causou quando ocorreu de verdade. Mas com Silvio Santos na presidência, esse luto seria oficial e de três dias.
De hora em hora, o SBT informaria o resultado parcial da Tele-Sena - a mais badalada loteria do país. A Mega-Sena seria uma mísera rifa - com o título de "Ação entre amigos" - perto da Tele-Sena. Pronunciamentos e anúncios oficiais, só no canal do presidente - e seriam os mais legais, via Porta da Esperança.
- Será que vem aumento de salário mínimoooo? Vamos abrir as portas da esperança!
Com o tempo, Silvio Santos ficaria esclerosado, abrindo espaço para a oposição armar vários golpes de estado. Nos braços do povo, o presidente apelaria para permanecer no poder:
- Segura o velhooooooo!
Mas a oposição alcançaria seu objetivo. E Silvio Santos deixaria o poder sem perder o bom humor:
- Me derrubaraaaaaam, não é possíveeeeel! Nunca mais eu faço isso.
É como diria o slogan do governo: o Brasil cresceria em ritmo de festa que balança o coração.
------
"Egídio, não entendi esse final do texto!" Então te atualiza, vivente:
E põe melhores nisso. Silvio era largamente respeitado, tanto que os mais saudosistas acham, até hoje, que ele devia ser presidente do Brasil. Talvez a nova geração nem desconfie disso, mas Silvio Santos na presidência nacional foi algo bastante plausível. Como se sabe, o projeto presidencial não foi adiante, mas é fato: o Homem do Baú ensaiou uma candidatura em 1989.
Se houve Lula, o sindicalista do ABC paulista, porque não haveria Silvio Santos, o camelô carioca com muito orgulho? Pois bem: e se Silvio Santos fosse presidente do país?
Não é difícil de imaginar. Toda eleição, depois de encerrada, é seguida de uma expectativa nacional em torno dos nomes dos ministros que formarão o escrete governista do eleito. Com Silvio Santos não seria diferente. A imprensa toda estaria atrás dele, que seria evasivo:
- Quem é que eu vou chamaaaaaaar, quem é que eu vou chamaaaaaaaar?
Se a cena ocorresse nas eleições de 1989, Zélia Cardoso de Mello estaria pulando enlouquecida na plateia do auditório, entoando cânticos de "chama eu, Silvio! Chama eu!" Assim como o PMDB. Por sua indicação, Ratinho acumularia o Ministério da Defesa e o Ministério da Previdência Social e Maísa assumiria a Casa Civil - ninguém protestaria, pois todos acham fofo uma criança demonstrar tamanha maturidade. O mistério ficaria para o Ministério da Cultura: Liminha ou Carlos Alberto de Nóbrega?
Brasileiros pagariam seus impostos com o Carnê do Baú, enquanto nossa dívida externa seria paga em barras de ouro, que valem mais que dinheiro. No setor da saúde, o Brasil teria um revolucionário sistema de distribuição de remédios: bastaria adquirirmos produtos Jequiti, com alguma revendedora. E se Lula fez o maior alarde com o Fome Zero, Silvio Santos faria um alarde ainda maior com o seu grande projeto social, o Teleton, que ficaria a encargo de Hebe Camargo. Depois de alguns anos, Hebe balançaria no cargo, graças ao Escândalo dos Selinhos.
O Brasil não estaria livre da corrupção, mas ela certamente seria menor. Isso graças ao inovador sistema de inteligência e espionagem, desenvolvido pelo CC Ivo Holanda. A cada prisão efetuada, a cada quadrilha desbaratada, a cada crime solucionado, uma manifestação pública do nosso amado Chefe de Estado: "bem bolada, bem bolada!". Tudo graças às operações Câmera Escondida.
O grande problema de Silvio Santos seria a maciça oposição: Collor, Lula, Globo, Band, Record, Manchete e Rede TV!. A Globo, aliás, defenderia arduamente a privatização do SBT, canal estatal onde o presidente do país é o manda-chuva. A Record rezaria para dar certo, enquanto a Manchete e a Rede TV!, bem, talvez chamassem o Jaspion. A Band se mudaria para a Argentina.
Isso porque ser dono de uma rede de televisão renderia comparações com Silvio Berlusconi e Hugo Chávez. As aparições públicas seriam largamente exploradas pelo SBT, porque o presidente não largaria o hábito de jogar aviõezinhos para o auditório, perguntando "quem quer dinheirooooooooo?" de forma entusiástica. Tal atitude renderia comentários negativos da oposição. Collor diria que "é um populismo barato e desenfreado", enquanto Lula afirmaria que "é uma atitude hipócrita da burguesia" ("hipócrita é o AeroLula!", responderia o Homem do Baú). O fato é que toda a população pensaria: "pago imposto demais, mas pelo menos o dinheiro volta pra gente".
Notícias sobre o presidente seriam narradas no canal oficial do governo pelo Lombardi. A morte dele, aliás, causaria a mesma tristeza e luto que causou quando ocorreu de verdade. Mas com Silvio Santos na presidência, esse luto seria oficial e de três dias.
De hora em hora, o SBT informaria o resultado parcial da Tele-Sena - a mais badalada loteria do país. A Mega-Sena seria uma mísera rifa - com o título de "Ação entre amigos" - perto da Tele-Sena. Pronunciamentos e anúncios oficiais, só no canal do presidente - e seriam os mais legais, via Porta da Esperança.
- Será que vem aumento de salário mínimoooo? Vamos abrir as portas da esperança!
Com o tempo, Silvio Santos ficaria esclerosado, abrindo espaço para a oposição armar vários golpes de estado. Nos braços do povo, o presidente apelaria para permanecer no poder:
- Segura o velhooooooo!
Mas a oposição alcançaria seu objetivo. E Silvio Santos deixaria o poder sem perder o bom humor:
- Me derrubaraaaaaam, não é possíveeeeel! Nunca mais eu faço isso.
É como diria o slogan do governo: o Brasil cresceria em ritmo de festa que balança o coração.
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"Egídio, não entendi esse final do texto!" Então te atualiza, vivente:
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Jucelino, um sonhador
E mais um ano vai chegando ao fim. Engana-se quem pensa que eu vou recitar aquela música da Simone, mas cabe a pergunta: será que realizamos nossas metas, nossos sonhos? O que fizemos?
Pois este é o momento de avaliarmos isso. Acho que todo mundo precisa fazer isso. Inclusive o nobre Jucelino Nóbrega da Luz. E vocês devem estar se perguntando "quem raios é este Jucelino sei-lá-eu-das-quantas?" Pois bem: lá foi tu, caro vivente, preencher teu perfil no Orkut ou no Facebook. Lá pelas tantas pinta uma ideia brilhante para preencher o campo "Sobre mim", e esta ideia é: "Sonhador(a) profissional".
Caríssimos, lamento informar, mas sonhador profissional é Jucelino. O resto é meramente resto. Jucelino é tão competente na arte de sonhar que eu suponho que ele não faça outra coisa além de dormir. Mais: ele dorme em algum Instituto do Sono, vigiado por aparelhos moderníssimos, que captam as imagens que ele sonha. Estas imagens são interpretadas por uma equipe, que trata de divulgar os sonhos de Jucelino mundo afora.
É isso aí. Mundo afora mesmo. Jucelino é famoso (aqui podemos discutir o conceito de "famoso") por ter sonhos premonitórios de catástrofes e enviar cartas a quem, supostamente, vai sofrer a tal catástrofe, alertando-os do perigo.
Um exemplo: Jucelino sonha que uma cidade vai sofrer com um furacão. Então ele envia uma carta às autoridades da tal cidade, relatando o tal sonho e sugerindo providências, senão uma cacetada de gente vai morrer. Outro exemplo: Jucelino sonha que Michael Jackson vai morrer, e envia uma carta contando o que sonhou e que a saúde do rei do pop corre perigo. Bem, ele alega que realmente fez isso.
Mencionei que ele afirma registrar as cartas que envia em cartório? Mencionei sim. Claro que mencionei. Basta ler a primeira frase deste parágrafo.
E quando eu digo que suponho que Jucelino não faça outra coisa além de dormir, devo dizer que minha suposição é baseada exclusivamente em números - e, como se sabe, os números não mentem. Em 22 de dezembro de 2009, Jucelino fez 230 previsões para 2010 - sem contar as que ele certamente teve durante o corrente ano, durante seu sagrado sono. Eu, como um doce cabeludo de nobre coração que vai todos os dias ao bosque recolher lenha, sinto-me na obrigação de ajudar Jucelino a verificar se seus sonhos se realizaram em 2010.
Esta tarefa não é difícil. Basta ver, no link do parágrafo acima, que pelo menos 90% dos sonhos de Jucelino tratam de toda a sorte de catástrofes e putarias naturais nos mais diversos locais do mundo. As tragédias sonhadas por ele foram tantas que é impressionante ele não ter mijado na cama de medo uma única vez, e poderiam se resumir em um único sonho: "o mundo acabará". Como ainda não acabou, Jucelino já não cumpriu boa parte das suas sonhadas metas.
Só de terremotos foram cerca de cagocentos e doze sonhos - nenhum deles no Chile ou no Haiti, o que comprova que o forte dos sonhos de Jucelino não é a Geografia.
Tudo o que ele previu oniricamente para o Chile foram conflitos que causariam grandes danos à Capital, em setembro. Se formos interpretar esta frase como fazem os estudiosos das centúrias de Nostradamus, perceberemos claramente que esta foi uma previsão do acidente que deixou dezenas de mineiros soterrados por um bom tempo. Uma pena que os coitados não souberam interpretar isso a tempo. Para o Haiti, nada de terremotos, e sim um furacão. Ou seja, o forte dos sonhos de Jucelino, além de não ser Geografia, também não deve ser Ciências.
Mas deixemos as tragédias naturais de lado. Há muitas tragédias artificiais: nos sonhos de Jucelino, o terrorismo é constante (como esse rapaz não mija na cama, céus?). Afeganistão, Paquistão e Iraque sofreriam com atentados. Ponto para Jucelino! Eu estou aprendendo com ele: eu previ que o sol nasceria sempre de manhã durante este ano. Acertei em cheio!
Há uma previsão bastante interessante, a de número 26: "Saúde de cantor (R.C.) é abalado por problemas renais" (sic). O que significa R.C.? Ray Charles? Ray Conniff? Roberto Carlos? Não interessa: ele acertou. Ray Charles teve a saúde tão abalada em 2010 que morreu - em 2004. Ray Conniff sofreu ainda mais em 2010, tanto que morreu em 2002, antes mesmo de Ray Charles. E Roberto Carlos perdeu a perna nos anos 40 - se isso não é ter a saúde abalada em 2010, eu não sei mais o que é. Problemas renais? Ora, não se apeguem a detalhes. Lembrem-se que o forte de Jucelino não é Ciências.
Jucelino sonhou também com as eleições e, segundo a previsão 175, o candidato censurado ganharia no primeiro turno. Das duas, uma: ou política também não é o forte dos sonhos dele, ou Jucelino sonhou com institutos de pesquisa. E ele sonha também com a política do mundo todo: além de um possível atentado a Barack Obama, ele sonhou que o presidente norte-coreano correria sério risco de vida em agosto. Será que acertou? Será que errou? Eis um mistério que a censura do comunismo nortecoreano deixa no ar.
Prezado Jucelino, eu poderia aqui te desejar um ótimo 2011, mas infelizmente isso não é possível. Não quero atrapalhar teu sono, onde certamente estão surgindo previsões de um 2011 macabro e tenebroso, e não ótimo. No entanto, não quero aqui ser mal-educado contigo e encerrar este post sem me despedir de ti.
Durma bem, nobre cavalheiro.
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Pois este é o momento de avaliarmos isso. Acho que todo mundo precisa fazer isso. Inclusive o nobre Jucelino Nóbrega da Luz. E vocês devem estar se perguntando "quem raios é este Jucelino sei-lá-eu-das-quantas?" Pois bem: lá foi tu, caro vivente, preencher teu perfil no Orkut ou no Facebook. Lá pelas tantas pinta uma ideia brilhante para preencher o campo "Sobre mim", e esta ideia é: "Sonhador(a) profissional".
Caríssimos, lamento informar, mas sonhador profissional é Jucelino. O resto é meramente resto. Jucelino é tão competente na arte de sonhar que eu suponho que ele não faça outra coisa além de dormir. Mais: ele dorme em algum Instituto do Sono, vigiado por aparelhos moderníssimos, que captam as imagens que ele sonha. Estas imagens são interpretadas por uma equipe, que trata de divulgar os sonhos de Jucelino mundo afora.
É isso aí. Mundo afora mesmo. Jucelino é famoso (aqui podemos discutir o conceito de "famoso") por ter sonhos premonitórios de catástrofes e enviar cartas a quem, supostamente, vai sofrer a tal catástrofe, alertando-os do perigo.
Um exemplo: Jucelino sonha que uma cidade vai sofrer com um furacão. Então ele envia uma carta às autoridades da tal cidade, relatando o tal sonho e sugerindo providências, senão uma cacetada de gente vai morrer. Outro exemplo: Jucelino sonha que Michael Jackson vai morrer, e envia uma carta contando o que sonhou e que a saúde do rei do pop corre perigo. Bem, ele alega que realmente fez isso.
Mencionei que ele afirma registrar as cartas que envia em cartório? Mencionei sim. Claro que mencionei. Basta ler a primeira frase deste parágrafo.
E quando eu digo que suponho que Jucelino não faça outra coisa além de dormir, devo dizer que minha suposição é baseada exclusivamente em números - e, como se sabe, os números não mentem. Em 22 de dezembro de 2009, Jucelino fez 230 previsões para 2010 - sem contar as que ele certamente teve durante o corrente ano, durante seu sagrado sono. Eu, como um doce cabeludo de nobre coração que vai todos os dias ao bosque recolher lenha, sinto-me na obrigação de ajudar Jucelino a verificar se seus sonhos se realizaram em 2010.
Esta tarefa não é difícil. Basta ver, no link do parágrafo acima, que pelo menos 90% dos sonhos de Jucelino tratam de toda a sorte de catástrofes e putarias naturais nos mais diversos locais do mundo. As tragédias sonhadas por ele foram tantas que é impressionante ele não ter mijado na cama de medo uma única vez, e poderiam se resumir em um único sonho: "o mundo acabará". Como ainda não acabou, Jucelino já não cumpriu boa parte das suas sonhadas metas.
Só de terremotos foram cerca de cagocentos e doze sonhos - nenhum deles no Chile ou no Haiti, o que comprova que o forte dos sonhos de Jucelino não é a Geografia.
Tudo o que ele previu oniricamente para o Chile foram conflitos que causariam grandes danos à Capital, em setembro. Se formos interpretar esta frase como fazem os estudiosos das centúrias de Nostradamus, perceberemos claramente que esta foi uma previsão do acidente que deixou dezenas de mineiros soterrados por um bom tempo. Uma pena que os coitados não souberam interpretar isso a tempo. Para o Haiti, nada de terremotos, e sim um furacão. Ou seja, o forte dos sonhos de Jucelino, além de não ser Geografia, também não deve ser Ciências.
Mas deixemos as tragédias naturais de lado. Há muitas tragédias artificiais: nos sonhos de Jucelino, o terrorismo é constante (como esse rapaz não mija na cama, céus?). Afeganistão, Paquistão e Iraque sofreriam com atentados. Ponto para Jucelino! Eu estou aprendendo com ele: eu previ que o sol nasceria sempre de manhã durante este ano. Acertei em cheio!
Há uma previsão bastante interessante, a de número 26: "Saúde de cantor (R.C.) é abalado por problemas renais" (sic). O que significa R.C.? Ray Charles? Ray Conniff? Roberto Carlos? Não interessa: ele acertou. Ray Charles teve a saúde tão abalada em 2010 que morreu - em 2004. Ray Conniff sofreu ainda mais em 2010, tanto que morreu em 2002, antes mesmo de Ray Charles. E Roberto Carlos perdeu a perna nos anos 40 - se isso não é ter a saúde abalada em 2010, eu não sei mais o que é. Problemas renais? Ora, não se apeguem a detalhes. Lembrem-se que o forte de Jucelino não é Ciências.
Jucelino sonhou também com as eleições e, segundo a previsão 175, o candidato censurado ganharia no primeiro turno. Das duas, uma: ou política também não é o forte dos sonhos dele, ou Jucelino sonhou com institutos de pesquisa. E ele sonha também com a política do mundo todo: além de um possível atentado a Barack Obama, ele sonhou que o presidente norte-coreano correria sério risco de vida em agosto. Será que acertou? Será que errou? Eis um mistério que a censura do comunismo nortecoreano deixa no ar.
Prezado Jucelino, eu poderia aqui te desejar um ótimo 2011, mas infelizmente isso não é possível. Não quero atrapalhar teu sono, onde certamente estão surgindo previsões de um 2011 macabro e tenebroso, e não ótimo. No entanto, não quero aqui ser mal-educado contigo e encerrar este post sem me despedir de ti.
Durma bem, nobre cavalheiro.
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Corpo são, mente sã?
É difícil crer naquela máxima do esporte, que diz "corpo são, mente sã". Basta olhar para os jogadores de futebol: é uma tarefa hercúlea encontrar algum que saiba escrever corretamente um bilhete que diga "já volto".
Mas tudo bem, é sacanagem minha restringir a análise de inteligência de atletas apenas aos jogadores de futebol. E foi com isso em mente que eu estava assistindo ontem uma matéria no SporTV, falando sobre o Prêmio Brasil Olímpico, onde alguns repórteres estavam vagando pelos bastidores do evento, horas antes deste ter início.
Eis que a repórter se aproximou de uma menina para entrevistá-la. A guria era atleta do pentatlo, uma modalidade que, por si só, poderia revelar que seu praticante não bate muito bem das ideias. O pentatleta é, no mínimo um sujeito pra lá de indeciso. Com certeza fica pensando: "Não sei que esporte praticar. Ah, quer saber? Vou fazer todos. Dane-se."
"Não seja tão ranzinza", repreendi-me, "dá uma chance pra guria mostrar sua inteligência". Fiz isso sem dificuldade, e a guria acabou mostrando o seu valor: expressava-se com desenvoltura, com um ótimo vocabulário e tudo o mais. O mais incrível era o seu sotaque nordestino, o que dá um tremendo chute na bunda daquela ideia pré-concebida que todos os nordestinos têm dificuldade de aprendizado e são burros a dar com um pau - em duas palavras, "tremendamente imbecis". Esse ano aprendemos que não: tremendamente imbecis foram os paulistas que fizeram daquele palhaço nordestino - que tem um QI 2 pontos maior que uma garrafa de plástico - o deputado mais votado do país. Mas divago.
Enfim, a pentatleta se saiu muitíssimo bem. Fiquei surpreso: eis uma atleta inteligente! Há esperanças no mundo!
Então os repórteres continuaram vagando pelos bastidores, e encontraram o judoca Leandro Guilheiro, que era um dos três indicados ao prêmio de melhor atleta olímpico do Brasil entre os homens. A repórter, louca de faceira, abordou-o:
- E está aqui um dos candidatos ao prêmio de melhor atleta do ano, Leandro Guilheiro, do judô! Ele tá aí, querendo dar um ippon nos outros dois concorrentes, que são o César Cielo, da natação, e o Murilo, do vôlei. Não é mesmo, Guilheiro?
Percebam, a abordagem dela foi cheia de simpatia e humor. Certamente estava treinando para o teste para o elenco da "Praça É Nossa".
O judoca, percebendo a sagacidade da moça, resolveu que seria uma ótima ideia ser simpático e bem humorado também. Entre sorrisos, respondeu:
- É, pois é, eles são grandes, mas não são dois - brincou. Que rapaz destemido este Leandro Guilheiro, hein?! É capaz de encarar gente maior que ele!
Mas... se César Cielo e Murilo não são dois, são o quê? Duas? Ou são a mesma pessoa?
Atenção Comitê Olímpico Internacional, fica o alerta para esta fraude.
Mas tudo bem, é sacanagem minha restringir a análise de inteligência de atletas apenas aos jogadores de futebol. E foi com isso em mente que eu estava assistindo ontem uma matéria no SporTV, falando sobre o Prêmio Brasil Olímpico, onde alguns repórteres estavam vagando pelos bastidores do evento, horas antes deste ter início.
Eis que a repórter se aproximou de uma menina para entrevistá-la. A guria era atleta do pentatlo, uma modalidade que, por si só, poderia revelar que seu praticante não bate muito bem das ideias. O pentatleta é, no mínimo um sujeito pra lá de indeciso. Com certeza fica pensando: "Não sei que esporte praticar. Ah, quer saber? Vou fazer todos. Dane-se."
"Não seja tão ranzinza", repreendi-me, "dá uma chance pra guria mostrar sua inteligência". Fiz isso sem dificuldade, e a guria acabou mostrando o seu valor: expressava-se com desenvoltura, com um ótimo vocabulário e tudo o mais. O mais incrível era o seu sotaque nordestino, o que dá um tremendo chute na bunda daquela ideia pré-concebida que todos os nordestinos têm dificuldade de aprendizado e são burros a dar com um pau - em duas palavras, "tremendamente imbecis". Esse ano aprendemos que não: tremendamente imbecis foram os paulistas que fizeram daquele palhaço nordestino - que tem um QI 2 pontos maior que uma garrafa de plástico - o deputado mais votado do país. Mas divago.
Enfim, a pentatleta se saiu muitíssimo bem. Fiquei surpreso: eis uma atleta inteligente! Há esperanças no mundo!
Então os repórteres continuaram vagando pelos bastidores, e encontraram o judoca Leandro Guilheiro, que era um dos três indicados ao prêmio de melhor atleta olímpico do Brasil entre os homens. A repórter, louca de faceira, abordou-o:
- E está aqui um dos candidatos ao prêmio de melhor atleta do ano, Leandro Guilheiro, do judô! Ele tá aí, querendo dar um ippon nos outros dois concorrentes, que são o César Cielo, da natação, e o Murilo, do vôlei. Não é mesmo, Guilheiro?
Percebam, a abordagem dela foi cheia de simpatia e humor. Certamente estava treinando para o teste para o elenco da "Praça É Nossa".
O judoca, percebendo a sagacidade da moça, resolveu que seria uma ótima ideia ser simpático e bem humorado também. Entre sorrisos, respondeu:
- É, pois é, eles são grandes, mas não são dois - brincou. Que rapaz destemido este Leandro Guilheiro, hein?! É capaz de encarar gente maior que ele!
Mas... se César Cielo e Murilo não são dois, são o quê? Duas? Ou são a mesma pessoa?
Atenção Comitê Olímpico Internacional, fica o alerta para esta fraude.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Em dois palitos
Se fizermos uma pesquisa de opinião, perguntando às pessoas o que falta a elas, algumas dirão "dinheiro". Outras dirão "paciência pra aturar uma pergunta imbecil dessas". Mas muitas, muitas mesmo, dirão "tempo".
Tempo é uma coisa complicada. Tanto que as pessoas nem querem mais medi-lo com esmero. Hoje em dia é muito comum uma pessoa dizer algo como "Isso eu faço em dois tempos". Ok, mas é dois tempos de quê? Basquete? Futebol? Afinal, vai demorar ou não?
Essa despreocupação em medir o tempo explica-se pelo fato de que cada vez mais temos menos tempo em nossas vidas para realizar nossas tarefas - a despeito da imensa quantidade de medidores de tempo: segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, decênios, séculos, milênios e palitos.
Percebam a complicação do tempo através dos tempos: primeiro, a humanidade media a passagem do tempo através da Lua ou de algumas constelações. Depois, passamos a medi-lo com ampulhetas, ou observávamos as horas passarem através do sol. Depois, os segundos se faziam cada vez mais presentes nos relógios modernos. E, agora, medimos o tempo com palitos.
Vejam o caso dessa propaganda da Skol:
Incumbido de realizar uma tarefa, o japa garante que a realizará em dois palitos. E eu fico deprimido quando esta propaganda termina, porque ela joga na minha cara a ignorância imensurável que habita em mim: eu não sei se dois palitos é um tempo muito longo ou muito curto para executar alguma tarefa.
Quando se usa palito para medir o tempo, pode ser uma referência ao tempo que um palito de fósforo leva para ser consumido inteiramente pelo fogo. Se é este o caso, o palito é grande ou pequeno?
Mas o palito usado para medir o tempo pode não ser de fósforo, mas de dentes. E aí a coisa complica de vez. Neste caso, creio que a sujeira presente na arcada dentária exerce forte influência na medição do tempo. E a sujeira no dente nada mais é que o resultado de uma refeição - e esta pode ser curta ou longa, rápida ou demorada, um generoso jantar ou um mísero lanchinho, quiçá um assalto à geladeira durante a madrugada. Ademais, o tempo utilizado para palitar os dentes pode ser influenciado pela pressa ou calma do dono da arcada dentária, podendo ele utilizar dois, três ou mesmo vinte palitos, mas demorando dois, três ou vinte segundos na limpeza bucal de emergência.
O tempo utilizado para palitar os dentes é muito relativo. Medir o tempo usando palitos reflete claramente o descaso que as pessoas têm com essa medição. O pior de tudo é que até agora eu não sei se o japa da propaganda foi rápido ou lento na tarefa de reabastecer o estoque de cervejas.
E a quem estiver se perguntando, fiquem tranquilos: eu não tinha nada de mais interessante para fazer quando escrevi este texto. Além disso, escrevi-o em dois tempos. Ou dois palitos, como queiram.
Tempo é uma coisa complicada. Tanto que as pessoas nem querem mais medi-lo com esmero. Hoje em dia é muito comum uma pessoa dizer algo como "Isso eu faço em dois tempos". Ok, mas é dois tempos de quê? Basquete? Futebol? Afinal, vai demorar ou não?
Essa despreocupação em medir o tempo explica-se pelo fato de que cada vez mais temos menos tempo em nossas vidas para realizar nossas tarefas - a despeito da imensa quantidade de medidores de tempo: segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, decênios, séculos, milênios e palitos.
Percebam a complicação do tempo através dos tempos: primeiro, a humanidade media a passagem do tempo através da Lua ou de algumas constelações. Depois, passamos a medi-lo com ampulhetas, ou observávamos as horas passarem através do sol. Depois, os segundos se faziam cada vez mais presentes nos relógios modernos. E, agora, medimos o tempo com palitos.
Vejam o caso dessa propaganda da Skol:
Incumbido de realizar uma tarefa, o japa garante que a realizará em dois palitos. E eu fico deprimido quando esta propaganda termina, porque ela joga na minha cara a ignorância imensurável que habita em mim: eu não sei se dois palitos é um tempo muito longo ou muito curto para executar alguma tarefa.
Quando se usa palito para medir o tempo, pode ser uma referência ao tempo que um palito de fósforo leva para ser consumido inteiramente pelo fogo. Se é este o caso, o palito é grande ou pequeno?
Mas o palito usado para medir o tempo pode não ser de fósforo, mas de dentes. E aí a coisa complica de vez. Neste caso, creio que a sujeira presente na arcada dentária exerce forte influência na medição do tempo. E a sujeira no dente nada mais é que o resultado de uma refeição - e esta pode ser curta ou longa, rápida ou demorada, um generoso jantar ou um mísero lanchinho, quiçá um assalto à geladeira durante a madrugada. Ademais, o tempo utilizado para palitar os dentes pode ser influenciado pela pressa ou calma do dono da arcada dentária, podendo ele utilizar dois, três ou mesmo vinte palitos, mas demorando dois, três ou vinte segundos na limpeza bucal de emergência.
O tempo utilizado para palitar os dentes é muito relativo. Medir o tempo usando palitos reflete claramente o descaso que as pessoas têm com essa medição. O pior de tudo é que até agora eu não sei se o japa da propaganda foi rápido ou lento na tarefa de reabastecer o estoque de cervejas.
E a quem estiver se perguntando, fiquem tranquilos: eu não tinha nada de mais interessante para fazer quando escrevi este texto. Além disso, escrevi-o em dois tempos. Ou dois palitos, como queiram.
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